Tecnologia

O segredo que ninguém conta sobre os foguetes 100% brasileiros…

Motor de propulsão líquida de foguete brasileiro em teste no ITA São José dos Campos
Startup do ITA testa motor que levará satélites brasileiros ao espaço com tecnologia 100% nacional.

Uma startup nascida nos corredores do ITA acaba de garantir R$ 25 milhões da Finep para tirar do papel o motor que colocará satélites nacionais em órbita sem depender de ninguém. A tecnologia de propulsão líquida está sendo testada agora mesmo em São José dos Campos. O que falta para o Brasil entrar de vez no clube dos países com lançamento próprio?

O aporte, confirmado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, financia duas frentes simultâneas: o motor de estágio superior — aquele que acende no vácuo e posiciona a carga útil — e a turbobomba que viabiliza motores de primeiro estágio, responsáveis pela decolagem. Juntas, as peças compõem o “coração” de um foguete orbital.

Por que isso muda o jogo para empresas brasileiras

Hoje, qualquer satélite nacional — seja de comunicação, observação da Terra ou defesa — precisa “pegar carona” em foguetes estrangeiros. Isso significa filas de espera de anos, custos em dólar e veto tecnológico a cargas sensíveis. O domínio da propulsão líquida quebra esse ciclo.

Segundo a Finep, o movimento espelha o fenômeno global chamado New Space: startups ágeis substituindo agências inchadas, com ciclos de desenvolvimento em meses, não décadas. O Brasil tem mão de obra especializada, base industrial e agora, capital de risco estatal direcionado.

O que está sendo testado nos laboratórios da Univap

Paralelamente à startup, pesquisadores da Universidade do Vale do Paraíba atacam um gargalo químico: a decomposição catalítica do peróxido de hidrogênio. A substância, estável e pouco tóxica, vira gás quente e oxigênio ao contato com o catalisador certo — empuxo limpo para manobras orbitais e controle de atitude.

  • Vantagem: substitui hidrazina, propelente tóxico e carcinogênico usado na maioria dos satélites atuais
  • Desafio: criar catalisador que resista a ciclos térmicos extremos sem degradação
  • Prazo: validação em ambiente simulado de voo prevista para 2025

A geopolítica por trás do investimento

“Soberania nacional hoje passa pelo acesso ao espaço”, resume José Henrique Pereira, gerente de inovação da Finep. Não é retórica: quem controla o lançamento controla a órbita, a frequência de revisita de sensores e a criptografia de comunicações estratégicas. A guerra na Ucrânia provou que constelações comerciais podem ser desligadas ou negadas a nações específicas.

O Brasil assinou os Acordos de Artemis e negocia cláusulas de transferência de tecnologia com parceiros europeus e americanos. Mas a autonomia de lançamento — negada há décadas por regimes de controle de mísseis — só virá com hardware próprio voando do Centro de Lançamento de Alcântara.

O que observar nos próximos 18 meses

Três marcos dirão se o programa sai do PowerPoint:

  • Teste estático do motor de estágio superior em bancada (previsto para 1º semestre de 2025)
  • Qualificação da turbobomba em regime de rotação nominal
  • Primeiro voo suborbital integrando propulsão e avionica nacionais

Se a startup cumprir o cronograma, o primeiro foguete orbital brasileiro com motor líquido próprio pode decolar antes de 2027. Para investidores e gestores de ativos espaciais, a janela de entrada em cadeias de suprimento nacionais — materiais, eletrônica rad-hard, software de voo — está aberta agora. Quem esperar o voo inaugural pagará prêmio de pioneiro.