Tecnologia

O segredo que ninguém conta: por que o Brasil virou o “paraíso” dos data centers enquanto os EUA rejeitam

Data center moderno no Brasil com servidores e bandeira nacional simbolizando expansão do setor
Brasil atrai data centers com energia limpa e incentivos enquanto EUA enfrentam resistência local

O Brasil tem apenas 218 data centers contra mais de 4.700 nos Estados Unidos, mas a corrida presidencial de 2026 transformou a atração dessas instalações em consenso entre os principais candidatos. A diferença? Enquanto americanos protestam contra o avanço do setor, o país oferece energia renovável, incentivos fiscais e uma posição geográfica estratégica — mas o diabo mora nos detalhes da regulação que ainda não saiu do papel.

O abismo entre os dois mercados

Os números expõem a assimetria. Os EUA lideram o ranking global com 4.700 complexos, segundo o Data Center Map (setembro de 2024). O Brasil ocupa o 12º lugar. Essa lacuna custou caro: o déficit na balança comercial de Serviços de Computação e Informação fechou 2025 em US$ 8 bilhões, segundo a Brasscom. Cada dado processado no exterior é dinheiro saindo do país.

Mas a rejeição americana não é irrelevante. Uma pesquisa Reuters/Ipsos revelou que 64% da população discorda que a construção acelerada de data centers seja positiva para o país. E 57% não querem esses complexos em seus bairros. O motivo central: consumo voraz de energia e água, além do impacto nas contas de luz vizinhas.

A carta na manga brasileira: matriz energética

A grande virada de jogo está na fonte da eletricidade. Nos EUA, a matriz depende majoritariamente de combustíveis fósseis — petróleo e gás natural. No Brasil, usinas hidrelétricas, eólicas e solares dominam a geração. Para Marina Garrote, diretora de operações do Reglab, isso muda a equação do custo social:

“Com a matriz energética dos EUA, mais data centers significam mais emissões de carbono e conta de luz mais alta para o vizinho. No Brasil, se a expansão for, de fato, baseada em energia eólica e solar, o custo social será um pouco diferente.”

O professor Daniel Cordeiro, da USP, especialista em computação sustentável, alerta: o Brasil ainda não atingiu o volume de instalações — nem de problemas — que os americanos enfrentam. A janela para se precaver está aberta agora.

Redata: o regime que zera impostos, mas exige contrapartidas

Sancionado em setembro pelo presidente Lula, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) elimina impostos de importação sobre equipamentos. Em troca, as empresas devem cumprir quatro condições:

  • Usar apenas energia renovável ou de baixo carbono;
  • Limitar o consumo de água a 50 ml por quilowatt-hora;
  • Destinar 10% da capacidade ao mercado brasileiro;
  • Investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa no país.

Na prática, o Redata pode fazer o Brasil pular etapas que os EUA não conseguiram resolver. Mas Thais Ortega, coordenadora de pesquisa do Reglab, destaca que “atrair” é consenso — o “como” é onde mora a divergência entre candidatos.

O que cada presidenciável propõe para o setor

Todos os candidatos mais bem colocados nas pesquisas incluem data centers em seus planos, mas com abordagens distintas:

  • Lula (PT): foco em fomentar IA brasileira e criar modelos de linguagem nacionais;
  • Flávio Bolsonaro (PL): redução de impostos sobre energia e ligação da demanda à exploração de minerais críticos para chips;
  • Ronaldo Caiado (PSD): integração dos data centers a uma cadeia de inovação com semicondutores e modelos de linguagem;
  • Renan Santos (Missão): transformar o Brasil no maior exportador de processamento para IA e criar zonas com regime tributário específico;
  • Romeu Zema (Novo): prioridade à estabilidade regulatória e segurança jurídica.

Os demais candidatos não mencionam o tema em seus programas de governo.

O nó que ainda não foi desatado: “energia de baixo carbono”

Parte do Redata segue sem regulamentação. O ponto mais sensível é a definição de “energia de baixo carbono” — brecha que pode permitir o uso de gás natural, combustível fóssil. Thais Ortega, do Reglab, resume o risco:

“Há pontos a serem fechados na questão de como medir a sustentabilidade que terão impacto sobre o próximo governo, que talvez dará continuidade e tomará algumas decisões. Está aberto e é algo que deve ser levado em consideração.”

Além disso, o Brasil tem outra vantagem estrutural: a ampla rede de cabos submarinos que conecta o país ao mundo e um mercado interno em expansão. Para Marina Garrote, a disputa deixou de ser “se” devem ser instalados para ser “quais serão as regras”.

O que observar daqui para frente

As políticas atuais devem começar a mostrar efeito prático daqui a alguns anos. Cordeiro, da USP, reforça: a infraestrutura industrial precisa se adaptar para sustentar esse parque computacional, mas o impacto precisa ser medido desde agora — não depois que os problemas aparecerem. O consenso político existe. A energia renovável existe. O que falta é fechar a regulação para que o “paraíso” não vire um novo campo de batalha.