Internacional

O recuo de Trump e o acordo secreto do G7 que derrubou o diesel em 8%

Líderes do G7 e Trump em cúpula com barris de petróleo e gráfico de queda do diesel
Acordo do G7 libera 100 mi de barris e derruba diesel 8% após recuo de Trump.

Os Estados Unidos desistiram de bloquear as exportações de combustíveis depois que o G7 concordou em liberar 100 milhões de barris de petróleo e diesel dos estoques estratégicos. A decisão, anunciada na sexta-feira (2), evitou uma escalada que faria os preços globais dispararem às vésperas das eleições legislativas americanas.

Mas o que parecia uma concessão diplomática esconde uma engenharia de pressão que durou semanas. Entender os bastidores explica por que o mercado reagiu com tanta força — e o que pode vir a seguir.

A ameaça que moveu o tabuleiro

Legisladores republicanos de estados agrícolas pressionavam a Casa Branca a proibir a venda de diesel ao exterior. O objetivo: segurar o insumo no mercado interno e baixar o custo para produtores rurais antes de novembro.

A indústria petrolífera americana reagiu em bloco. O Instituto Americano de Petróleo (API) alertou que um embargo fragmentaria o abastecimento global e elevaria os preços para todos, inclusive nos EUA. Diplomatas europeus receberam um ultimato: liberem volumes expressivos ou a porta se fecha.

Os números do acordo fechado na sexta

A liberação coordenada pela Agência Internacional de Energia (AIE) seguirá este desenho:

  • 40 milhões de barris da Reserva Estratégica dos EUA (SPR)
  • Cerca de 50 milhões de barris de diesel europeu
  • O restante virá de países asiáticos membros da AIE

A operação ocorre em quatro meses, com volume “substancial” de diesel já nos primeiros 20 dias. O comunicado conjuto também prevê que os 400 milhões de barris acertados em março — dos quais 325 milhões já saíram — entram na conta.

Reação imediata: o mercado sentiu o alívio

Os contratos futuros de diesel na Europa caíram 8% no mesmo dia, para US$ 1.337,75 a tonelada — menor nível desde o início de setembro. Em Nova York, o diesel de atacado recuou quase 2%, a US$ 4,56 o galão.

A sinalização política pesou tanto quanto os volumes físicos. O compromisso de “abster-se de restrições à exportação de energia entre países do G7” tirou do radar o risco de uma guerra comercial de combustíveis.

Por que a Europa demorou a entregar

No acordo de março, os europeus se comprometeram com 73 milhões de barris de produtos refinados. Muitos países ainda não cumpriram a parte que lhes cabia, segundo Fatih Birol, diretor-executivo da AIE. Os EUA, por outro lado, já concluíram sua cota.

Esse descompasso deu munição à Casa Branca para exigir mais. A França propôs, nas negociações finais, que a Europa entrasse com 50 milhões de barris de diesel e o bloco da AIE completasse com 50 milhões de barris de petróleo bruto — exatamente o formato que prevaleceu.

O que observar daqui para frente

Líderes do G7 prometem se reunir “nos próximos dias” no âmbito da AIE para avaliar novas liberações, se necessário. Três variáveis vão ditar os próximos passos:

  • O ritmo real de entrega dos volumes europeus nas próximas semanas
  • A evolução dos choques de refino — Irã, Rússia-Ucrânia e restrições chinesas de exportação mantêm a oferta apertada
  • A pressão política interna nos EUA se os preços ao produtor não cederem até novembro

Enquanto o diesel negociar acima de US$ 200 o barril nas três principais praças globais, a arquitetura montada na sexta-feira será testada. O recuo de Trump comprou tempo. Não resolveu a equação estrutural.