A eleição presidencial brasileira de 2026 funciona como termômetro decisivo para a estratégia hemisférica de Donald Trump. Uma vitória da direita consolidaria a “onda laranja” — líderes alinhados ao republicano que vêm avançando pela América Latina —, enquanto a reeleição de Lula força Washington a negociar com seu principal contraponto ideológico no Sul Global.
O cenário coloca o maior país da região no centro de uma disputa que extrapola urnas: define se o continente caminha para alinhamento automático com a Casa Branca ou mantém margem de autonomia diplomática.
O prêmio maior da “onda laranja”
Analistas ouvidos pela BBC classificam o Brasil como a “peça fundamental” do tabuleiro trumpista. Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly, resume: “O Brasil é o maior prêmio. É pessoalmente importante para Trump. Ele tem uma relação com a família Bolsonaro que remonta a muitos anos”.
A conexão não é retórica. Desde janeiro de 2025, Trump declarou apoio público a candidatos de direita na Colômbia, Honduras e usou alavancas financeiras na Argentina para influenciar o resultado legislativo. Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também elegeram presidentes conservadores no ciclo recente.
Mas o Brasil difere: até agora, o republicano evitou endosso explícito a Flávio Bolsonaro. Em declarações recentes, limitou-se a dizer que acompanha “de perto” o pleito, chamando-o de “eleição muito importante”.
Doutrina Donroe: hegemonia com novo nome
A reinterpretção da Doutrina Monroe — batizada de “Doutrina Donroe” — orienta a atual política externa americana para o hemisfério. Marco Rubio, secretário de Estado, é apontado como o principal articulador da agenda latino-americana na administração.
O eixo gira em torno de três pilares:
- Segurança e narcotráfico: criação do “Escudo das Américas”, iniciativa de cooperação militar e combate a cartéis — da qual o Brasil está fora;
- Designação de grupos terroristas: PCC e Comando Vermelho entraram na lista em 2025, apesar da oposição do governo Lula;
- Pressão econômica: tarifas seletivas e sanções a autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes, aplicadas em 2024 e retomadas em 2025.
Especialistas veem na segurança a moeda de troca mais líquida. Carlos Gustavo Poggio, professor da Berea College, nota: “A direita é muito boa em dizer que vai fazer algo sobre o problema [da violência]. Isso abre vantagem eleitoral”. O modelo Bukele, em El Salvador, serve de referência — ainda que criticado por abusos de direitos humanos.
O risco do efeito bumerangue
Historicamente, apoios explícitos de Trump a candidatos latino-americanos tendem a beneficiar o adversário. Poggio alerta: “Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra”.
Em 2024, medidas retaliatórias americanas — tarifas e sanções — geraram reação de soberania que, segundo pesquisas, fortaleceu Lula internamente. O fechamento temporário de embaixadas dos EUA e Austrália no Brasil, dias antes do primeiro turno, alimentou narrativas de interferência externa.
Por outro lado, a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca em 2025, seguida da designação de PCC e CV como organizações terroristas, sinaliza coordenação tácita. A expectativa de analistas: um governo Bolsonaro integraria o “Escudo das Américas” e aprofundaria cooperação militar com Washington.
Cenários para 2026 e o dia seguinte
Se Lula vence: a Casa Branca deve buscar “entendimento pragmático”, nas palavras de Winter, mas a relação começa sob tensão. O Brasil manteria distância do bloco de segurança americano e reforçaria laços com China e Sul Global.
Se Flávio Bolsonaro vence: alinhamento automático em segurança, comércio e voto em organismos internacionais. O Brasil entra no “Escudo das Américas” e abre espaço para operações conjuntas — incluindo possíveis ações militares em território nacional contra facções.
O fator imprevisível é a insatisfação do eleitorado com incumbentes, fenômeno que transcende ideologia. Poggio resume: “É menos ideológico e mais gente insatisfeita com os atuais mandatários”.
O que observar nos próximos meses
Três sinais dirão para onde o vento sopra: (1) se Trump rompe o silêncio e endossa explicitamente um lado; (2) se novas sanções ou tarifas surgem às vésperas da campanha; (3) como o discurso de segurança — e a promessa de “mão dura” — ressoa nas pesquisas de intenção de voto nas capitais onde PCC e CV atuam. O tabuleiro está posto. A jogada decisiva cabe ao eleitor brasileiro.
