O Brasil chega às urnas de 2026 com um retrato econômico contraditório: nunca se trabalhou tanto, nunca se ganhou tanto — e nunca se deveu tanto. Esse triângulo de recordes simultâneos cria um cenário de incerteza que torna a disputa presidencial imprevisível.
De um lado, o mercado de trabalho exibe números históricos. De outro, o endividamento das famílias atinge patamares que comprometem o poder de compra real. O eleitor médio vive os dois mundos ao mesmo tempo.
O mercado de trabalho quebrou todos os recordes
A taxa de desocupação caiu para 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor nível para o período desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. São 103,5 milhões de brasileiros ocupados — o maior contingente já registrado.
A renda média real da população ocupada atingiu R$ 3.777 mensais, também um recorde para agosto. Em tese, variáveis que costumam favorecer quem busca a reeleição: emprego cheio e salário em alta.
Mas o bolso sente o peso dos juros
O contraponto vem do custo do dinheiro. A Selic mantida em 13,75% ao ano para conter a inflação encareceu o crédito e apertou orçamentos já pressionados. O resultado aparece nos dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio):
- 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto — maior patamar da série iniciada em 2010
- 29,9% estavam com contas em atraso (inadimplentes)
- 12,5% declararam não ter condições de quitar os débitos vencidos
Em 2022, no pleito anterior, o endividamento era de 79% e a inadimplência, 29,6%. A piora é nítida e atinge sobretudo as faixas de menor renda.
Endividamento não é consumo: é sobrevivência
Segundo Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, as famílias não estão se endividando para consumir mais. “Estão se endividando por causa do histórico de dívidas passadas que dificulta muito o reequilíbrio orçamentário.”
O aperto monetário criou um ciclo: juros altos → prestações maiores → menos folga no orçamento → novo endividamento para cobrir buracos. Pesquisadores do Ibre/FGV confirmam: comprometimento da renda e inadimplência bancária estão em níveis recordes ou próximos deles.
O rosto humano dos números
Luana Dutra Gomes, 37 anos, técnica em enfermagem, ilustra o drama. Já com orçamento apertado por empréstimo consignado, foi vítima de golpe digital que gerou duas operações de crédito fraudulentas em seu nome. Não conseguiu arcar com os custos, viu o nome negativado e hoje sobrevive vendendo pertences, fazendo bicos e recebendo doações de alimentos.
“Meu nome sujou. Não consegui pagar cartão, não consegui fazer mais nada, me atolei em dívida”, resume.
O que os analistas projetam para o pleito
Para Sergio Vale, da MB Associados, o cenário geral ainda é favorável ao governo na busca pela reeleição, citando queda do desemprego e sinais de trégua inflacionária. Mas ele ressalva: “O que tem de negativo e afeta potencialmente a popularidade é a inadimplência. Juros elevados, população endividada e o efeito das bets.”
O economista-chefe da CNC resume: “Faz sentido que a disputa esteja tão acirrada.” Sinais dúbios na economia geram incerteza eleitoral — e explicam why as pesquisas mostram empate técnico entre os dois favoritos.
O que observar daqui para frente
Três variáveis devem ditar o humor do eleitorado nas próximas semanas: a trajetória da Selic (se houver espaço para cortes), a evolução da inadimplência nas faixas de renda mais baixa e a capacidade de geração de vagas formais com carteira assinada. O desenlace não está no emprego — está no quanto do salário sobra depois de pagar as dívidas.
