A dívida pública atingiu 82,9% do PIB em agosto — o maior nível em cinco anos — e os seis principais presidenciáveis concordam que o próximo governo terá de frear essa trajetória. Mas, quando a conversa avança para o como, o consenso desmancha. O eleitor fica sem saber qual receita será servida após a posse.
O diagnóstico é unânime: juros altos por tempo prolongado, endividamento crescente e despesas obrigatórias que pressionam o Orçamento. A divergência começa no remédio.
O que une Lula, Flávio Bolsonaro e os outros quatro
Apenas dois pontos reúnem apoio total: redução de renúncias fiscais e expansão de concessões de infraestrutura. Fora isso, cada candidatura desenha um mapa próprio — e, na maioria dos casos, incompleto.
O ministro Dario Durigan, porta-voz da área econômica de Lula, defende gatilhos no arcabouço fiscal para conter gastos obrigatórios. O presidente, porém, já chamou de “babaquice” a obsessão por superávit. Em comícios, priorizou bondades eleitorais com impacto direto nas contas públicas.
Do lado de Flávio Bolsonaro (PL), a assessora Daniella Marques acenou com corte de R$ 300 bilhões, mas recusou-se a detalhar a conta. O candidato desautorizou publicamente medidas duras discutidas em reuniões fechadas, como desindexar benefícios previdenciários do salário mínimo. “Não precisa fazer economia em cima dos aposentados”, afirmou.
As propostas que ninguém explica direito
Enquanto o debate eleitoral foi consumido pela crise do Banco Master, fraudes no INSS e o financiamento do filme “Dark Horse”, as equipes econômicas evitaram o detalhamento. O economista Felipe Salto, da Warren Investimentos, resume: “Tem gente propondo reduzir carga tributária. É evidência de desconhecimento do Orçamento brasileiro”.
Veja como cada um posiciona o controle de despesas:
- Lula (PT): mantém arcabouço atual com ajustes pontuais.
- Flávio Bolsonaro (PL): teto de gastos atrelado à relação dívida/PIB; vende imóveis e corta ministérios.
- Ronaldo Caiado (PSD): PEC de emergência fiscal — despesas primárias crescem no máximo 50% do PIB esperado.
- Romeu Zema (Novo): regra mais dura; defende desvincular pisos de saúde e educação das receitas.
- Augusto Cury (Avante): novo arcabouço com limite para compras públicas.
- Renan Santos (Missão): revoga arcabouço; PEC de transição com economia projetada de R$ 1 trilhão até 2031.
Onde o eleitor sente no bolso: 6×1, MEI e Previdência
Três temas de apelo direto dividem o campo — e expõem o cálculo eleitoral por trás das propostas.
O fim da escala 6×1 (dois dias de descanso semanal) volta ao Senado após o primeiro turno. Lula, Caiado e Cury apoiam. Zema e Renan Santos classificam como “eleitoreira”. Flávio Bolsonaro evita posição explícita, mas seu plano prevê jornada negociada individualmente — sem resolver o financiamento previdenciário.
O teto do MEI, hoje em R$ 81 mil, tem projeto aprovado em comissão na Câmara para subir a R$ 150 mil. Lula, Caiado e Cury são a favor. Zema e Renan Santos, contra.
Já a desindexação de benefícios sociais e Previdência do salário mínimo — reajuste apenas pela inflação — era defendida por integrantes da equipe de Flávio Bolsonaro, mas abortada pelo candidato. Lula, Caiado, Cury e Zema também rejeitam.
Saúde e educação: o embate dos pisos constitucionais
Estimativas do Tesouro mostram que, a partir de 2027, as despesas discricionárias com saúde e educação deverão crescer, em média, 2,5% e 9,3% ao ano para cumprir os mínimos constitucionais. Zema e Renan Santos querem desvincular. Lula, Flávio, Caiado e Cury são contrários.
“Prefiro piso de resultado, não de gasto”, disse Carlos da Costa, assessor de Zema. Durigan, pela campanha de Lula, citou o Pé-de-Meia como ajuste “por dentro” do piso da educação.
O que observar daqui para a frente
O primeiro turno termina sem que o eleitor saiba, com clareza, qual combinação de corte de gasto, receita extra e regra fiscal será proposta ao Congresso em 2025. A dívida não espera campanha. Fique atento a três sinais nos próximos meses: (1) se os eleitos apresentam números fechados de superávit primário; (2) se há disposição para mexer em indexações que travam o Orçamento; (3) se o arcabouço vigente sobrevive ou será substituído por emenda constitucional. O tamanho da conta — e quem a pagará — ainda está em branco.
