A União Europeia decidiu ampliar sua rede de acordos de livre-comércio para reduzir a dependência dos Estados Unidos, e o Brasil já sente o impacto direto nos números. Desde a aplicação provisória do pacto com o Mercosul, em maio de 2026, as exportações brasileiras para o bloco europeu cresceram 23,5% — mais que o dobro da média global. A estratégia de diversificação deixará de ser opção para virar necessidade competitiva nos próximos trimestres.
O choque de números que explica a virada de chave
O comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, confirmou que o bloco mantém 45 acordos ativos com 81 países, com negociações recém-concluídas com Indonésia, Índia e Austrália elevando o total para 48 tratados cobrindo 83 nações. O movimento não é retórico: a UE perdeu 65 milhões de toneladas de capacidade siderúrgica e 100 mil empregos no setor, o que forçou a imposição de cotas de aço que atingem até parceiros preferenciais como o Brasil.
Enquanto isso, o comércio transatlântico — ainda a maior relação bilateral do bloco, com quase US$ 2 trilhões em 2025 — foi estabilizado via declaração conjunta que limitou tarifas americanas a 15% e abriu exceções para aeronaves e genéricos. A lição interna: confronto custa caro, diálogo preserva previsibilidade.
Três produtos brasileiros que explodiram com a queda de tarifas
A aplicação provisória do acordo UE-Mercosul, iniciada em 1º de maio de 2026, já produz efeitos mensuráveis entre maio e agosto. O crescimento de 23,5% nas exportações brasileiras para a UE supera em 12,5 pontos percentuais a alta total das exportações nacionais (11%). Três itens puxaram a fila com altas de três dígitos:
- Abacates: +443%
- Óleo de milho bruto: +347%
- Café torrado: +232%
O estoque de investimentos europeus no Brasil — já o maior externo do país — soma € 276 bilhões (R$ 1,6 trilhão) em 2024. A expectativa do comissário é que o acordo expanda essa base, gerando mais capital e empregos ao longo do tempo.
Carne bovina: o entrave que não se resolve em meses
Apesar do avanço em aves e mel — cujas auditorias sanitárias tiveram conclusões positivas e seguem para aprovação dos Estados-membros —, a carne bovina brasileira segue fora do mercado europeu. A autoridade sanitária da UE já sinalizou que a retomada não ocorrerá em menos de dois anos. O Brasil entregou protocolos, a Comissão avaliou, mas o rito burocrático exige validação política dos 27 países do bloco.
O comissário evita cravar prazos, mas garante contato estreito com o Conselho e autoridades brasileiras para acelerar a implementação assim que houver aval. Para o exportador, a leitura prática: planeje sem contar com carne bovina no curto prazo.
Aço, política interna e a variável Bolsonaro
A cota de aço imposta pela UE atinge 80% das importações vindas de parceiros preferenciais, o que inclui o Brasil. Sefcovic admite o desconforto, mantém diálogo aberto e projeta solução nos “próximos meses” que equilibre exportação brasileira e segurança econômica europeia. Não há promessa de reversão, apenas negociação.
No front político, a eventual eleição de Flávio Bolsonaro — que propõe saída do Mercosul e alinhamento aos EUA — não altera a validade jurídica do acordo. O Brasil ratificou o tratado com ampla maioria no Parlamento, tornando-se parte signatária independente do bloco sul-americano. A UE declara “confiança na resiliência da parceria” e reforça que seus acordos não são “voltados contra ninguém”, mas sim para diversificar cadeias e reduzir dependências.
O que observar daqui para a frente
Três marcos definem o ritmo nos próximos meses: a decisão do Tribunal de Justiça da UE sobre a conformidade do tratado (sem prazo fixo), a votação final no Parlamento Europeu e a ratificação pelos 27 Estados-membros. Enquanto isso, a aplicação provisória segue plena. Em dezembro, Sefcovic lidera missões empresariais em Punta del Este e Buenos Aires para consolidar laços comerciais. Para quem opera no comércio exterior, o sinal é claro: a janela de ganhos tarifários já está aberta, mas os gargalos sanitários e siderúrgicos exigem gestão de risco ativa, não espera passiva.
