Tecnologia

Google derruba 46 canais de “médicos de IA” que enganaram 70 milhões de idosos no Brasil

Avatar de médico gerado por IA em tela de smartphone com idosos assistindo vídeo de cura milagrosa
Golpe usava avatares de IA fingindo ser médicos para enganar 70 milhões de idosos no YouTube

O Google confirmou à Advocacia-Geral da União a remoção de 46 canais e 11 vídeos que usavam avatares gerados por inteligência artificial para se passar por profissionais de saúde. A ação atendeu a uma notificação extrajudicial do governo federal enviada no início de setembro.

O que chama atenção não é apenas o volume de conteúdo derrubado, mas o alcance que essa rede alcançou antes da intervenção: mais de 70 milhões de visualizações em vídeos que prometiam curas milagrosas e tratamentos sem respaldo científico.

Como a indústria de falsos médicos operava em escala industrial

Levantamento da organização CTRL+Z, base das reportagens que detonaram a investigação, identificou 29 canais em português dedicados exclusivamente a esse esquema. A produção funcionava como uma linha de montagem: cerca de dez novos vídeos por dia, roteiros escritos por IA, narração sintética e imagens geradas artificialmente.

Em alguns casos, a fraude ia além da criação de personagens fictícios. Pelo menos cinco canais clonaram o rosto e a voz do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro, usando sua identidade real para endossar recomendações perigosas. O médico só descobriu o golpe ao ver a própria imagem na reportagem inicial.

O impacto direto na saúde de quem assistia

O perigo não era teórico. A análise de aproximadamente 27 mil comentários revelou relatos concretos de idosos que seguiram as orientações. Uma mulher de 82 anos chegou a substituir medicamentos prescritos por alimentos e tratamentos caseiros indicados pelo “médico” do vídeo.

“Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível”, disse ela à reportagem.

  • Automedicação estimulada por promessas de cura rápida
  • Interrupção de tratamentos reais em favor de terapias sem eficácia comprovada
  • Risco de envenenamento por substâncias recomendadas sem critério

Resposta do Google e os números da limpeza

Em resposta formal à AGU na segunda-feira (28/9), a empresa detalhou o balanço da operação: além dos 46 canais e 11 vídeos removidos por violação de políticas de fraude, roubo de identidade e desinformação médica, outros 32 canais e quatro vídeos já estavam indisponíveis no momento da notificação. Dois canais foram apenas desmonetizados.

A plataforma afirmou que todo conteúdo — inclusive o gerado por IA — deve seguir as diretrizes que proíbem informações incorretas sobre prevenção e tratamentos capazes de causar danos graves no mundo real.

Investigações criminais em andamento

O caso ganhou contornos policiais. O Ministério da Saúde encaminhou o relatório à Polícia Federal, enquanto o médico Hélio Brasileiro registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo. O 3º Distrito Policial de Sorocaba abriu inquérito para identificar os responsáveis, considerando possíveis crimes de falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.

A delegada Alessandra Silveira classificou a disseminação de desinformação médica via simulação biométrica como situação que exigia atuação imediata, dada a possibilidade de gerar risco de envenenamento ou automedicação em larga escala.

O que observar daqui para frente

A força-tarefa que uniu Ministério da Saúde, AGU e Secretaria de Comunicação Social da Presidência sinaliza que o monitoramento continuará. Para profissionais de saúde e comunicadores, o caso expõe a urgência de protocolos de verificação de identidade digital em plataformas de vídeo. Para investidores e empreendedores do setor de health tech, fica o alerta: a regulação de conteúdo médico gerado por IA tende a se tornar mais rígida, com responsabilização direta das plataformas. A recomendação oficial permanece: confirmar qualquer orientação de saúde em fontes oficiais e denunciar conteúdos suspeitos.