O Google confirmou à Advocacia-Geral da União a remoção de 46 canais e 11 vídeos que usavam avatares gerados por inteligência artificial para se passar por profissionais de saúde. A ação atendeu a uma notificação extrajudicial do governo federal enviada no início de setembro.
O que chama atenção não é apenas o volume de conteúdo derrubado, mas o alcance que essa rede alcançou antes da intervenção: mais de 70 milhões de visualizações em vídeos que prometiam curas milagrosas e tratamentos sem respaldo científico.
Como a indústria de falsos médicos operava em escala industrial
Levantamento da organização CTRL+Z, base das reportagens que detonaram a investigação, identificou 29 canais em português dedicados exclusivamente a esse esquema. A produção funcionava como uma linha de montagem: cerca de dez novos vídeos por dia, roteiros escritos por IA, narração sintética e imagens geradas artificialmente.
Em alguns casos, a fraude ia além da criação de personagens fictícios. Pelo menos cinco canais clonaram o rosto e a voz do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro, usando sua identidade real para endossar recomendações perigosas. O médico só descobriu o golpe ao ver a própria imagem na reportagem inicial.
O impacto direto na saúde de quem assistia
O perigo não era teórico. A análise de aproximadamente 27 mil comentários revelou relatos concretos de idosos que seguiram as orientações. Uma mulher de 82 anos chegou a substituir medicamentos prescritos por alimentos e tratamentos caseiros indicados pelo “médico” do vídeo.
“Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível”, disse ela à reportagem.
- Automedicação estimulada por promessas de cura rápida
- Interrupção de tratamentos reais em favor de terapias sem eficácia comprovada
- Risco de envenenamento por substâncias recomendadas sem critério
Resposta do Google e os números da limpeza
Em resposta formal à AGU na segunda-feira (28/9), a empresa detalhou o balanço da operação: além dos 46 canais e 11 vídeos removidos por violação de políticas de fraude, roubo de identidade e desinformação médica, outros 32 canais e quatro vídeos já estavam indisponíveis no momento da notificação. Dois canais foram apenas desmonetizados.
A plataforma afirmou que todo conteúdo — inclusive o gerado por IA — deve seguir as diretrizes que proíbem informações incorretas sobre prevenção e tratamentos capazes de causar danos graves no mundo real.
Investigações criminais em andamento
O caso ganhou contornos policiais. O Ministério da Saúde encaminhou o relatório à Polícia Federal, enquanto o médico Hélio Brasileiro registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo. O 3º Distrito Policial de Sorocaba abriu inquérito para identificar os responsáveis, considerando possíveis crimes de falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.
A delegada Alessandra Silveira classificou a disseminação de desinformação médica via simulação biométrica como situação que exigia atuação imediata, dada a possibilidade de gerar risco de envenenamento ou automedicação em larga escala.
O que observar daqui para frente
A força-tarefa que uniu Ministério da Saúde, AGU e Secretaria de Comunicação Social da Presidência sinaliza que o monitoramento continuará. Para profissionais de saúde e comunicadores, o caso expõe a urgência de protocolos de verificação de identidade digital em plataformas de vídeo. Para investidores e empreendedores do setor de health tech, fica o alerta: a regulação de conteúdo médico gerado por IA tende a se tornar mais rígida, com responsabilização direta das plataformas. A recomendação oficial permanece: confirmar qualquer orientação de saúde em fontes oficiais e denunciar conteúdos suspeitos.
