A palavra “validar” invadiu reuniões, Slacks e feedbacks de desempenho, mas quase ninguém a usa no sentido técnico original. O resultado é uma cultura onde decisões estratégicas dependem de likes internos em vez de dados concretos.
O humorista Ricardo Araújo Pereira dissecou recentemente como o jargão da terapia vazou para o cotidiano, trocando empatia por aprovação cega. No ambiente de negócios, esse erro semântico tem custo real: equipes travadas, inovação sufocada e líderes reféns da popularidade.
Da catraca do ônibus ao KPI da autoestima
Antigamente, validar era ação mecânica: bilhete na catraca, luz verde, passagem liberada. Hoje, profissionais buscam “validação” constante — do chefe, do par, do mercado — como se fosse moeda de troca para a autoestima profissional.
O problema é a métrica. No digital, validação virou sinônimo de engajamento: curtidas, compartilhamentos, menções. Transportar essa lógica para a gestão transforma projetos em concursos de popularidade. Ideias complexas e necessárias morrem no nascedouro porque não “viralizaram” no canal da equipe.
Empatia não é concordância: o erro semântico caro
No consultório, validar significa: “Entendo sua dor e ela faz sentido dado seu contexto”. Na sala de reunião, virou: “Aprovo sua ideia para não gerar atrito”.
Essa confusão cria dois efeitos colaterais perigosos:
- Falso consenso: Ninguém discorda de verdade; apenas “valida” para manter a harmonia superficial.
- Incompetência validada: Erros técnicos ganham aval porque o autor é “validado” pelo grupo, não porque a solução funciona.
Araújo Pereira ilustra com precisão cirúrgica: validar o sentimento não equivale a validar o ato de quebrar a garrafa na testa do outro. No business, ouvir a frustração do cliente não obriga a entregar o produto errado que ele pediu.
A armadilha da validação circular
Existe um paradoxo lógico ignorado pela maioria: para que a validação alheia tenha valor, você precisa validar antes quem te valida. Se o aval vem de quem você não respeita tecnicamente, o sinal é ruído, não sinal.
O colunista usa o exemplo extremo: Ted Bundy tinha fãs; Van Gogh, nenhum. No universo corporativo, o “fidget spinner” da vez — a ferramenta hype, o framework da moda, o guru do momento — costuma reunir multidões de “validadores” sem entregar ROI real.
O executivo que depende desse ciclo entra num loop: valida o validador para se sentir validado. A autonomia decisória some.
O caso @crazyeagle23 e a reputação algorítmica
Imagine receber um elogio público de um perfil anônimo, @crazyeagle23, celebrando sua nova estratégia. A dopamina sobe. Mas, racionalmente, qual o peso da opinião de quem você não conhece, não audita e não confia?
Substitua @crazyeagle23 por “comitê de inovação”, “conselho consultivo” ou “influenciador do setor”. A dinâmica é idêntica. Muitos líderes ajustam roadmaps inteiros baseados em sinais de validação de fontes não qualificadas, ignorando dados de churn, NPS ou margem de contribuição.
O patamar superior: ignorar a si mesmo
Há quem diga “não ligo para o que pensam de mim”. Araújo Pereira propõe um grau a mais: “não ligo para o que eu penso”. No contexto executivo, isso se traduz em desapego das próprias convicções iniciais diante de evidências contrárias.
Não é autossabotagem. É método científico aplicado à gestão: a hipótese (seu “eu acho”) vale menos que o experimento (o dado de mercado). Buscar validação interna — “minha equipe concorda comigo?” — é tão perigoso quanto a externa.
O que observar daqui para frente
Substitua o verbo. Em vez de “preciso validar isso com o time”, teste: “preciso testar essa hipótese com o cliente” ou “preciso submeter esse risco ao comitê”.
Métricas de vaidade (aprovação, likes internos, consenso fácil) devem acionar alerta vermelho. Métricas de valor (receita, retenção, eficiência, redução de risco) devem ditar o ritmo.
O profissional que troca a busca por “validação” pela busca por “validez” — solidez técnica, aderência a fatos, resultado mensurável — deixa de ser refém do humor alheio. E passa a ser quem define para onde a catraca gira.
