Um professor de 28 anos pediu que adolescentes ligassem para alguém especial e dissessem “eu te amo” — o resultado quebrou barreiras que currículos tradicionais não alcançam. A experiência aconteceu em Milhã, município de 14 mil habitantes a 300 km de Fortaleza, e ganhou repercussão nacional semanas depois.
Mikael Medeiros leciona História, Filosofia e o componente curricular NTPPS (Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais) na escola de tempo integral Euclides Pinheiro de Andrade. A atividade foi aplicada com uma turma de terceiro ano do Ensino Médio no ano letivo anterior.
Por que socioemocional virou prioridade no sertão
O NTPPS não é optativo: integra a grade da rede estadual cearense com foco em competências cognitivas e socioemocionais, usando pesquisa como ferramenta de aprendizagem. Mikael percebeu, nas vivências sobre dinâmica familiar, que muitos alunos travavam ao tentar expressar afeto.
“Às vezes eles tinham dificuldade de falar sobre a família, de dizer que amavam”, relata o docente. A constatação veio de quem conhece o território: ele se formou na mesma escola em 2013 e voltou como professor seis anos depois.
A aula que fez pais receberem ligação “do bem”
Em setembro — mês dedicado à saúde mental e prevenção ao suicídio —, a proposta foi direta: cada aluno ligaria para uma pessoa significativa em sua trajetória e verbalizaria amor e importância. Choros e risadas marcaram o registro em vídeo.
O retorno das famílias surpreendeu até o idealizador. “Da próxima vez avisa, porque às vezes o coração não aguenta”, disse um pai ao encontrar o professor depois da aula. Outro ponto: a escola costuma ligar para responsáveis apenas por problemas comportamentais ou questões de saúde. A inversão dessa lógica gerou impacto imediato.
Três anos de experimentação contínua
A iniciativa não foi isolada. Mikael vem testando formatos distintos desde 2022:
- 2024: responsáveis gravaram mensagens reproduzidas em sala;
- Ano letivo passado: ligações ao vivo dos alunos;
- Próximo ciclo: encontro presencial entre estudantes e famílias para verbalização cara a cara.
Cada formato atende a uma camada diferente de intimidade e vulnerabilidade. A progressão sugere metodologia, não improviso.
O que gestores e investidores em educação devem observar
Milhã tem apenas duas escolas públicas de Ensino Médio. O caso evidencia que inovação pedagógica não depende de grande infraestrutura ou capitais — depende de autonomia docente alinhada a diretrizes curriculares claras.
O NTPPS existe em toda a rede estadual. O diferencial está na execução: transformar um componente teórico em experiência vivida, mensurável pelo engajamento real de alunos e famílias.
O que acompanhar nos próximos ciclos letivos
Três variáveis merecem monitoramento: (1) indicadores de permanência e conclusão do Ensino Médio na unidade; (2) dados de saúde mental autorreportados pelos estudantes; (3) replicabilidade da metodologia em outras escolas da rede que adotam o mesmo componente curricular. Se a correlação entre acolhimento socioemocional e resultados acadêmicos se confirmar, o modelo cearense deixa de ser caso isolado e vira referência de política pública escalável.
