Economia

O segredo que ninguém conta: por que um dos maiores industriais do Brasil defende o fim da escala 6×1…

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, em retrato executivo
Ostrowiecki defende fim da escala 6x1 e critica consenso empresarial sobre jornada de trabalho

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, quebra o consenso entre grandes empresários ao declarar publicamente: manter a jornada 6×1 na era da inteligência artificial é inaceitável. A posição expõe uma fratura silenciosa no empresariado nacional — e revela onde está o verdadeiro custo Brasil.

O executivo não prevê demissões em massa nem explosão de preços. Mas alerta: quem insiste em cortar o descanso do trabalhador está mirando no alvo errado.

O argumento que incomoda a Faria Lima

“Toda redução de jornada da história provocou o mesmo alarme, e a economia se adaptou.” A frase resume a visão de Ostrowiecki. Para ele, o custo de dar dois dias de folga semanais é “pequeno perto do que realmente encarece o produto brasileiro”.

Na lista dos vilões reais: burocracia asfixiante, impostos sobre consumo entre os mais altos do mundo, juros estratosféricos e o chamado custo Brasil — o conjunto de entraves que tornam produzir aqui até 30% mais caro que em economias comparáveis.

“Quem se preocupa com competitividade deveria começar cortando privilégios do Estado, não o descanso de quem trabalha.”

Os números que o discurso oficial ignora

A Multilaser provisionou R$ 31 milhões para lidar com a recuperação judicial da Casas Bahia — cerca de 2% da carteira de recebíveis. O impacto é classificado como “moderado” graças a seguros de crédito e diversificação de canais.

Mas o cenário macro assusta:

  • 82% das famílias brasileiras têm dívidas a vencer (recorde histórico da CNC)
  • 84 milhões de negativados em agosto (maior nível da série Serasa)
  • Juros reais que nenhum manual previa para este patamar por tanto tempo

“Não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo”, resume o empresário.

A “taxa das blusinhas” e a desindustrialização silenciosa

Ostrowiecki chama de “erro estratégico” a isenção de imposto de importação para encomendas de até US$ 50. A conta é simples: uma fábrica no Ceará paga ~30% do preço em tributos federais; a concorrente em Shenzhen entra com zero.

Somando custo Brasil, burocracia, multas e juros de 15% contra 3% na China, a equação fecha para a produção nacional.

“Ou o imposto é baixo para todos por igual ou é alto para todos. Até hoje não apareceu ninguém com bom argumento para cobrar mais da fábrica brasileira que da chinesa.”

A lei prevê relatórios semestrais medindo impacto em emprego, indústria e arrecadação. Ostrowiecki promete cobrá-los.

O que observar daqui pra frente

O empresário aposta que a tendência é migração de produção e estrutura comercial para o cross-border — marketplaces estrangeiros operando direto da Ásia. Resultado: mais empregos em fábricas e centros de distribuição na China, menos no Brasil.

Sua receita: replicar nacionalmente o modelo da Zona Franca de Manaus, onde impostos razoáveis provaram que a indústria brasileira compete de igual para igual com qualquer uma do mundo. “Redução de imposto não é o governo dando dinheiro para ninguém. É deixar de cobrar a facada cheia.”

O próximo governo, seja qual for, enfrentará a escolha que Ostrowiecki resume em uma frase: ajustar o Estado ou sacrificar quem trabalha e produz mais uma vez. Os relatórios semestrais da “taxa das blusinhas” serão o primeiro termômetro real dessa disputa.