Economia

O segredo que ninguém conta: por que o dono da Multilaser defende o fim da escala 6×1

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, em ambiente corporativo, defendendo fim da escala 6x1
Ostrowiecki quebra consenso empresarial e apoia fim da jornada 6x1, citando custo baixo da mudança

Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, quebra a unanimidade entre grandes empresários ao declarar apoio aberto ao fim da jornada 6×1. A posição surpreende porque vem de quem comanda uma das maiores fabricantes nacionais de eletrônicos — e porque ele afirma que o custo da mudança é “pequeno perto do que realmente encarece o produto brasileiro”.

Mas se o custo é tão pequeno, por que a resistência do setor produtivo é tão feroz? A resposta está no que ele chama de “privilegios do Estado”.

O argumento que desmonta o medo do desemprego

Ostrowiecki não prevê onda de demissões nem repasse integral ao consumidor. “Toda redução de jornada da história provocou o mesmo alarme, e a economia se adaptou”, diz. Para ele, o custo adicional de dois dias de descanso semanais vale a pena pela “enorme melhoria na qualidade de vida do trabalhador”.

O empresário lista o que considera os verdadeiros vilões da competitividade:

  • Custo Brasil: burocracia, multas e entraves logísticos;
  • Impostos sobre consumo: cerca de 30% do preço final em tributos federais;
  • Juros estratosféricos: 15% ao ano para a indústria nacional contra 3% na China.

“Quem se preocupa com a competitividade deveria começar cortando os privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador”, resume.

O recado para 2027: reforma estrutural ou mais sacrifício

Questionado sobre o que espera do próximo governo, Ostrowiecki não hesita: coragem para atacar o crescimento automático do gasto público. “O Estado brasileiro é o único agente da economia que nunca faz dieta. Quando falta dinheiro, ele aumenta a conta dos outros.”

Ele cita reforma administrativa, desvinculação de despesas e revisão de supersalários como condições indispensáveis. Sem isso, “nenhum arcabouço fiscal para em pé, e o juro continuará envenenando a economia”.

O efeito Casas Bahia e o consumidor no limite

A recuperação judicial da varejista — um dos maiores clientes da Multilaser — gerou provisão de R$ 31 milhões, pouco mais de 2% da carteira de recebíveis. O impacto é classificado como moderado graças a seguros de crédito e diversificação de canais.

O que preocupa mais é o cenário macro: 82% das famílias brasileiras têm dívidas a vencer (dado da CNC) e quase 84 milhões de pessoas estão negativadas (Serasa, agosto). “Não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo”, sentencia.

A “taxa das blusinhas” e o risco de desindustrialização

Ostrowiecki classifica como erro fatal a isenção de imposto de importação para encomendas de até US$ 50. O exemplo que dá é didático: uma fábrica no Ceará paga ~30% em tributos federais; a concorrente em Shenzhen entra com zero.

“Ou o imposto é baixo para todos por igual ou é alto para todos. Até hoje não apareceu ninguém com um bom argumento para cobrar mais imposto da fábrica brasileira do que da chinesa.”

A lei exige relatórios semestrais sobre impacto em emprego, indústria e arrecadação. Ele promete cobrar. O temor: migração de produção e centros de distribuição para a Ásia, gerando empregos lá — e destruindo-os aqui.

O modelo que funciona: Zona Franca para todo o Brasil

Com fábrica em Manaus, o empresário defende que o país replique as condições da Zona Franca em escala nacional. “Quando o imposto é razoável, a indústria brasileira compete com qualquer uma do mundo. Redução de imposto não é o governo dando dinheiro para ninguém, é simplesmente deixar de cobrar a facada cheia.”

Não se trata de privilégio para o Amazonas, mas de redução geral dos tributos sobre consumo.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o diagnóstico de Ostrowiecki se confirma: a disposição política para enfrentar privilégios fiscais em 2027, a trajetória da taxa Selic frente ao endividamento das famílias e os relatórios oficiais sobre o impacto da isenção de importados. Se o Estado não fizer a “dieta” que cobra do setor privado, a conta — mais uma vez — será paga por quem produz e por quem trabalha.