Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, quebrou o consenso entre grandes industriais ao declarar apoio aberto ao fim da jornada 6×1. A posição surpreende porque, segundo ele, o custo da mudança é real, mas irrelevante perto dos verdadeiros vilões da competitividade nacional.
O empresário não prevê demissões em massa nem explosão de preços. Mas faz um alerta: sem atacar a raiz do “custo Brasil”, qualquer ajuste trabalhista vira apenas mais um remendo em estrutura podre.
O argumento que desmonta o medo do empresariado
Ostrowiecki admite que reduzir a jornada tem impacto financeiro. Parte pode chegar ao consumidor. Porém, ele contextualiza: toda redução histórica de jornada provocou o mesmo alarme apocalíptico, e a economia sempre se adaptou.
Para ele, o custo extra é “pequeno” comparado ao que realmente encarece o produto brasileiro. A lista é conhecida, mas rara na boca de um grande industrial:
- Custo Brasil (burocracia, logística, insegurança jurídica)
- Impostos altos sobre o consumo
- Juros estratosféricos
“Quem se preocupa com competitividade deveria cortar privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador”, resume.
A conta que não fecha: Estado inchado vs. produção
O empresário vai além da pauta trabalhista. Instado sobre expectativas para 2027, cobra coragem para enfrentar o crescimento automático e obrigatório do gasto público.
Sua tese: o Estado é o único agente que nunca faz dieta. Quando falta recurso, aumenta a conta de quem produz. Sem reforma administrativa, desvinculação de despesas e fim dos supersalários, nenhum arcabouço fiscal para em pé — e o juro segue envenenando a economia.
A escolha do próximo governo, segundo ele, será binária: ajustar a máquina pública ou sacrificar quem trabalha mais uma vez.
O efeito colateral dos juros e a “engenharia comercial” impossível
O cenário de crédito deteriorado reforça o diagnóstico. Ostrowiecki cita que o risco real hoje supera os modelos tradicionais, e o patamar de juros alto por tempo prolongado não estava em nenhum manual.
A Multilaser provisionou R$ 31 milhões (pouco mais de 2% dos recebíveis) pela recuperação judicial da Casas Bahia, grande cliente. A exposição foi contida graças a seguro de crédito e diversificação de canais. Mas o recado é direto:
“Não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo.”
Enquanto isso, o consumidor está no limite: 82% das famílias endividadas (recorde da CNC) e quase 84 milhões de negativados (Serasa, agosto). A resposta da empresa é disciplina — mas disciplina não resolve juro estrutural.
A “taxa das blusinhas” e a desindustrialização silenciosa
Outro ponto de ruptura: a isenção de imposto federal para importados até US$ 50. Ostrowiecki chama de concorrência desleal institucionalizada.
O exemplo é didático: uma fábrica no Ceará paga ~30% do preço em tributos federais na cadeia. A concorrente em Shenzhen entra com zero imposto federal. Some-se juro de 15% aqui contra 3% na China, mais burocracia e multas. Não há sobrevivência possível nessa faixa de produto.
A lei exige relatórios semestrais sobre impacto em emprego, indústria e arrecadação. Ele promete cobrar. A previsão: deslocamento de produção e comércio para venda direta cross-border, gerando empregos na China e destruindo-os no Brasil.
O modelo que funciona: Manaus como prova de conceito
Com fábrica na Zona Franca, Ostrowiecki defende que o Brasil inteiro se espelhe no modelo manauara. Quando o imposto é razoável, a indústria brasileira compete com qualquer uma do mundo.
Redução de tributo não é subsídio, argumenta. É deixar de cobrar a “facada cheia”. Não defende privilégio regional, mas redução geral na carga sobre o consumo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o cenário: a tramitação da PEC da escala 6×1 no Congresso, a disposição política para mexer nos privilégios do Estado (reformas administrativa e tributária profunda) e a continuidade da política de juros altos. Se o diagnóstico de Ostrowiecki estiver certo, o custo de não fazer a reforma do Estado será sempre pago duas vezes: na folha de pagamento e na prateleira. Acompanhe os relatórios bimestrais da “taxa das blusinhas” — eles serão o termômetro real da desindustrialização em curso.
