Economia

O segredo do tomate: como o interior de SP criou um império e migrou para o Cerrado

Plantação de tomates no Cerrado goiano com máquinas agrícolas ao fundo
A migração do tomate para o Cerrado impulsionou a produtividade da agroindústria brasileira

Um novo livro revela que a indústria brasileira de tomate nasceu nos trilhos de Jundiaí, mas só explodiu de produtividade quando cruzou as divisas de Goiás. Entender essa rota explica por que o país ainda importa derivados mesmo sendo gigante na produção.

O pesquisador Paulo César Tavares de Melo, da USP/Esalq, mapeou 130 anos de história em História da Agroindústria do Tomate no Brasil. A obra mostra como logística, genética e disputas comerciais redesenharam o mapa do agronegócio nacional.

O entroncamento que lançou as bases em 1941

Tudo começou com a ferrovia. Jundiaí era o nó logístico que ligava interior, litoral e capital, condição essencial para escoar um produto perecível. Foi ali que famílias de comerciantes italianos — Messina, Rapa, Bonfiglioli — fundaram a Cica, embrião do setor.

Anos depois, os Pauletti, vindos da conserva de azeitona, criaram a Etti. Em poucos anos, a marca tornava-se a segunda maior do país. A decisão não foi romantismo: era matemática logística pura.

A genética japonesa que salvou a lavoura

Paralelamente, imigrantes japoneses transformaram subúrbios rurais como Mairinque e Cotia. Expulsos da cafeicultura, adotaram o tomate com mão de obra familiar e, sem apoio oficial, selecionaram a variedade Santa Cruz na década de 1940.

Ela virou padrão nacional e permitiu a expansão para Piedade, Sorocaba e Campinas. Foi a primeira grande inovação “de baixo para cima” do setor.

Quando o tomate virou nômade: a fuga para o Noroeste

No fim dos anos 1970, o polo de Monte Alto/Taquaritinga entrou em crise. Conflitos de preço entre indústria e produtores, somados à baixa produtividade da Santa Cruz (25 a 35 t/ha), empurraram a fronteira agrícola para terras mais baratas.

O resultado foi uma corrida industrial sem precedentes:

  • Cica inaugurou fábrica em Presidente Prudente;
  • Etti ergueu em Araçatuba a maior fábrica de tomate da América Latina na época.

A conversão de pastagens em lavouras de escala industrial redefiniu a geografia do negócio.

O salto do Cerrado: produtividade triplicou em décadas

A migração final aconteceu nos anos 1980, rumo ao Cerrado goiano. A adoção massiva de híbridos mudou a equação econômica para sempre.

Veja a diferença brutal nos números atuais:

  • Antiga variedade (Santa Cruz): 25 a 35 toneladas por hectare;
  • Híbridos atuais no Cerrado: 100 a 130 toneladas por hectare.

Hoje, a região cultiva 18 a 20 mil hectares com 100% de sementes híbridas, consolidando-se como a maior área de tomate industrial da América Latina ao sul do México.

Marcas que trocaram de mãos: o tabuleiro corporativo

A história das fábricas é também a história de fusões e aquisições que moldam o varejo atual:

  • Cica → Unilever → Cargill: detém o mascote Jotalhão e a marca Pomarola;
  • Qualimax/Quero (família Pauletti) → Heinz → 3G Capital + Warren Buffett;
  • Etti → Fenícia → Arisco;
  • Predilecta (Matão/SP): hoje a maior indústria genuinamente brasileira, dona de Salsaretti, Estrela D’Oro e Minas Mais.

O paradoxo atual: produção recorde, mas dependência externa

O Brasil processa 1,2 a 1,3 milhão de toneladas por ano. Mesmo assim, a demanda interna por derivados (extrato, molho, ketchup) obriga o país a importar.

O tomate divide com a batata o posto de hortaliça mais relevante do PIB agrícola — superando feijão e banana — justamente por operar em dois mercados simultâneos: mesa e indústria. Essa dualidade garante renda e emprego contínuos nas regiões produtoras, mas expõe a cadeia a choques cambiais e climáticos.

O que observar daqui para frente

Três vetores ditam o próximo ciclo: a evolução de híbridos tolerantes a estresse hídrico no Cerrado, a taxa de câmbio (que regula a competitividade da importação) e a concentração industrial nas mãos de tradings globais.

Para investidores e gestores, o recado do livro é claro: no tomate, logística e genética andam juntas. Quem controla a semente e o escoamento dita o preço — seja em Jundiaí, seja no Planalto Central.