Economia

O liberalismo está rachado: de um lado a tecnologia, do outro a desigualdade…

Ilustração de liberalismo rachado: tecnologia e desigualdade em lados opostos, com livro de Daron Acemoglu
A fratura do liberalismo exposta: tecnologia de um lado, desigualdade do outro, segundo Daron Acemoglu.

O liberalismo nunca foi um bloco único, e a fratura exposta agora tem nome: Daron Acemoglu. Seu livro “What Happened to Liberal Democracy?” escancara uma tensão que empresários e investidores não podem ignorar — o modelo que sustentou décadas de crescimento está deixando de entregar prosperidade compartilhada.

A promessa central do liberalismo sempre foi simples: liberdades básicas, propriedade privada e império da lei geram riqueza que, em tese, beneficia a todos. O problema é que o “em tese” virou “na prática não”.

Onde o modelo travou

Acemoglu aponta três forças que desequilibraram a balança nas últimas décadas:

  • Mudanças tecnológicas que concentraram ganhos de produtividade no topo;
  • Globalização que deslocou poder de barganha dos trabalhadores;
  • Outras disrupções que permitiram a uma elite capturar fatias crescentes da riqueza.

O resultado prático: queda de confiança nas instituições e reflexos diretos no tabuleiro político. Quem opera no mercado sente isso na volatilidade regulatória, na pressão por políticas redistributivas e na instabilidade de regras do jogo.

A aposta do “liberalismo da classe trabalhadora”

A solução proposta pelo economista do MIT tem um rótulo direto: working class liberalism. A ideia é reequilibrar os pratos a favor do trabalhador — salários, poder de negociação, proteção contra choques — sem abandonar o arcabouço liberal.

Previsivelmente, o livro dividiu a crítica. Thomas Piketty, pela esquerda acadêmica, aplaudiu. The Economist, bastião do liberalismo ortodoxo, atacou. O divisor de águas não é ideológico: é tecnológico.

Duas apostas, um mesmo risco

De um lado, otimistas projetam que a IA e a automação trarão ganhos de produtividade tão expressivos que inaugurarão uma era de abundância generalizada. Do outro, pessimistas alertam: sem regulação forte, a tecnologia só aprofundará a concentração de renda, abrindo caminho para movimentos autoritários.

O autor da análise original assume o agnosticismo. Não há dado suficiente para cravar o impacto da IA daqui a 20 ou 30 anos. Mas há um ponto de concordância prática: para chegar no longo prazo, é preciso sobreviver ao curto.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos trimestres:

  • Política de renda: avanço de salários mínimos, fortalecimento de sindicatos, tributação sobre riqueza;
  • Regulação de plataformas e IA: antitruste, transparência algorítmica, responsabilidade por decisões automatizadas;
  • Resposta do capital: realocação de investimentos, estratégias de automação versus capacitação de mão de obra.

Empresários que tratam isso como “questão política alheia” correm o risco de ser atropelados pela regulação reativa. Investidores que ignoram a dinâmica de confiança institucional subprecificam risco soberano e regulatório. O liberalismo versátil do título original só sobrevive se conseguir renegociar seu contrato social — e o relógio não para.