Tecnologia

IA nos escritórios de elite: a conta que os clientes não querem mais pagar

Advogados em escritório moderno analisam dashboards de inteligência artificial em telas holográficas
Grandes bancas adotam IA, mas clientes exigem descontos pela eficiência tecnológica.

Os maiores escritórios de advocacia dos EUA estão correndo para adotar inteligência artificial, mas a festa da eficiência tem um convidado indesejado: o cliente. Grandes bancas como Sullivan & Cromwell e Ropes & Gray exibem novas ferramentas que prometem fazer em horas o que levava semanas, só para ouvir da outra lado da mesa a mesma pergunta: “E o meu desconto?”.

A pressão por redução de honorários explodiu justamente quando a tecnologia deveria turbinar os lucros. Estamos diante de um impasse que pode forçar a reinvenção do modelo de negócios mais tradicional do direito corporativo.

O tiro que saiu pela culatra

Lançamentos recentes mostram o entusiasmo do setor. A OpenAI trouxe um modelo focado em juristas, e a resposta foi imediata: o Cooley criou o Go Public para ofertas iniciais de ações (IPOs), enquanto o Ropes & Gray desenvolve um sistema que entrega due diligence detalhada em horas, não semanas. Google e Anthropic também entraram na disputa, e o Kirkland & Ellis anunciou investimentos pesados em IA proprietária.

Até aí, tudo bem. O problema é que o modelo de receita dessas firmas depende da hora faturável. Se a IA acelera o trabalho, a conta cai. E os clientes perceberam a conta antes dos advogados.

Como os clientes estão usando a IA contra os advogados

A negociação saiu da base do “achismo” e ganhou dados. Departamentos jurídicos internos e consultorias especializadas passaram a rodar agentes de IA sobre as faturas recebidas. O objetivo: identificar tarefas que a tecnologia já resolveria em minutos.

  • Riscos nas faturas: Itens de revisão documental e pesquisa básica são literalmente riscados.
  • Argumento do “comunicado de imprensa”: “Vocês anunciaram a ferramenta X, então não me cobrem horas humanas para o que ela faz”.
  • Pedidos padronizados: Reduções globais de 20% a 30% no valor total tornaram-se prática comum, segundo Kyle Poe, da Legora.

Jennifer Leonard, da Creative Lawyers, resume o clima: “Eles dizem: ‘Não queremos mais pagar por essa parte do trabalho'”.

A defesa dos escritórios: “Ainda não economiza tanto”

As bancas resistem. O argumento central, exposto por Neill Jakobe, vice-presidente do Ropes & Gray, é que a IA ainda não elimina volume massivo de horas — ela muda a natureza das horas. Menos repetição, mais análise estratégica. O custo da tecnologia (licenças, desenvolvimento, treinamento) também é alto e, por enquanto, bancado pelos sócios.

Mas a trincheira está furada. A concorrência não vem mais apenas do escritório da esquina.

Os “escritórios nativos de IA” que assustam o establishment

Empresas como a Norm AI mudaram o jogo. Com um escritório afiliado focado no setor financeiro, captaram US$ 260 milhões (cerca de R$ 1,3 bi) em julho, atingindo valuation de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,2 bi). Investidores de peso — Khosla Ventures, Blackstone, Bain Capital — são, simultaneamente, financiadores e clientes.

O modelo deles: preço fixo antecipado, uso intensivo de agentes autônomos e zero hora faturável. Para o cliente corporativo, a previsibilidade orçamentária vale ouro.

O dilema matemático da hora faturável

O cenário é um beco sem saída clássico:

  1. Usar IA → trabalho mais rápido → menos horas para faturar.
  2. Não usar IA → perde eficiência → cliente migra para concorrente mais barato.

A receita dos grandes escritórios ainda cresceu mais de 12% no primeiro semestre, e as taxas-hora subiram dois dígitos (dados Wells Fargo). Mas a pesquisa do Citi com 55 grandes bancas revela a ansiedade latente: 35% esperam mudar o modelo de cobrança em 1 ano; 65% projetam a mudança até 2035.

O fim da hora faturável? Nem tão cedo

Jeff Bleich, enviado especial da Anthropic, foi direto a uma plateia de advogados: “Não acho que a cobrança por hora seja a solução, e sabemos disso há muito tempo”. Ainda assim, poucos apostam na extinção total. A hora faturável segue útil para gerenciar riscos em litígios complexos ou M&A imprevisíveis — onde o escopo explode sem aviso.

A transição provável é híbrida. Tarefas repetitivas e de alto volume (due diligence, revisão de contratos padronizados, registros de marcas) migram para fixed fee ou subscription models. O “alto discernimento” — estratégia, negociação, presença em tribunal — permanece na hora.

Jon Ballis, presidente do Kirkland & Ellis, admite: “Grandes escritórios adotarão mais preços fixos e honorários fechados. Isso já está acontecendo”.

O que observar daqui para frente

A mudança não virá de um dia para o outro. “Nenhum escritório quer ser o primeiro a pular do penhasco”, diz Poe, da Legora. A estratégia atual é preparação silenciosa: estruturar dados, treinar modelos internos e desenhar tabelas de preços alternativos para ativar no momento exato.

Três sinais práticos para monitorar nos próximos trimestres:

  • Divulgação de “realização de IA” nas faturas: Bancas como Ropes & Gray já detalham onde a tech foi usada. Se virar padrão, a pressão por desconto vira cláusula contratual.
  • Contratação de Chief Innovation Officers com poder de veto em pricing: Sinal de que a tecnologia deixou de ser “suporte” e virou “produto”.
  • Movimento de talentos para legal tech nativos: Se sócios seniores saírem para fundar ou liderar bancas nativas de IA, o modelo tradicional perde a guarda avançada.

Para o empresário ou investidor, a lição é clara: o ativo valioso não é mais a hora do advogado, mas a arquitetura de dados e prompts que resolve o problema jurídico em escala. Quem precificar essa arquitetura — e não o tempo — vai ditar as regras do jogo.