Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, quebrou o consenso entre grandes empresários ao defender publicamente o fim da jornada 6×1. Para ele, manter trabalhadores sem dois dias de descanso na era da inteligência artificial é inaceitável. Mas a posição sobre a escala é apenas a porta de entrada para um diagnóstico muito mais duro sobre a economia brasileira.
O executivo não prevê demissões em massa nem repasses expressivos ao consumidor. Admite que há custo na redução da jornada, mas classifica esse impacto como “pequeno perto do que realmente encarece o produto nacional”. A provocação lança uma pergunta incômoda: se não é a folga do trabalhador, o que torna o Brasil tão caro para produzir?
O verdadeiro vilão da competitividade
Ostrowiecki aponta o dedo para o conjunto histórico de entraves conhecido como “custo Brasil”. Burocracia asfixiante, carga tributária sobre o consumo entre as mais altas do planeta e juros reais que beiram a agiotagem formam, na visão dele, a tríade que sufoca a indústria. Enquanto o empresariado brasileiro paga cerca de 15% ao ano por capital de giro, concorrentes chineses acessam dinheiro a 3%.
A disparidade tributária fica nítida no exemplo das “blusinhas”: uma fábrica no Ceará embute cerca de 30% do preço em impostos federais ao longo da cadeia; um envio direto de Shenzhen entra com alíquota zero até US$ 50. “Não há possibilidade de a empresa brasileira sobreviver nessa faixa de produto”, resume.
- Imposto federal na cadeia nacional: ~30% do preço final
- Imposto federal na importação até US$ 50: 0%
- Custo de capital (Brasil): ~15% a.a.
- Custo de capital (China): ~3% a.a.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor.
O Estado que nunca faz dieta
Há 15 anos Ostrowiecki ajudou a fundar o Ranking dos Políticos, plataforma de viés liberal que monitora o Congresso. Sua cobrança agora mira a raiz fiscal: o crescimento automático e obrigatório do gasto público. Sem reforma administrativa, desvinculação de despesas e corte de privilégios — supersalários e penduricalhos incluídos —, nenhum arcabouço fiscal se sustenta e o juro segue “envenenando a economia”.
O recado para 2027 é direto: o próximo governo, seja qual for, terá de escolher entre ajustar o Estado ou sacrificar quem produz mais uma vez. A conta, alerta, sempre cai no mesmo colo.
Crédito podre e o consumidor no limite
O cenário de recuperações judiciais em cascata — Casas Bahia é o caso mais recente — reforça a tese de que o risco de crédito hoje supera qualquer modelo tradicional. A Multilaser provisionou R$ 31 milhões (pouco mais de 2% da carteira de recebíveis) graças a seguros de crédito, mas o empresário admite: “não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo”.
Os números do varejo confirmam a deterioração: 82% das famílias brasileiras carregam dívidas a vencer (recorde da CNC) e a Serasa contabilizou quase 84 milhões de negativados em agosto, o maior patamar da série histórica. A reação da empresa foi blindar-se com gestão rigorosa de recebíveis, diversificação de canais e portfólio de entrada acessível.
A lei que empurra empregos para a Ásia
A crítica à isenção de importados até US$ 50 vai além do protecionismo. Ostrowiecki prevê que a maior parte da produção e do varejo migrará para o modelo cross-border — marketplaces estrangeiros vendendo direto ao consumidor brasileiro. O resultado: fábricas e centros de distribuição na China absorvendo os postos de trabalho que seriam criados aqui.
A própria legislação exige que o governo meça, a cada seis meses, o impacto sobre emprego, indústria e arrecadação. “Vamos cobrar esses relatórios”, avisa. A opção estratégica para muitas empresas, diz, será deslocar estrutura produtiva e comercial para fora.
O espelho de Manaus
Com fábrica na Zona Franca, o executivo usa o polo como prova de conceito: quando a tributação é razoável, a indústria brasileira compete de igual para igual com qualquer player global. “Redução de imposto não é o governo dando dinheiro para ninguém, é simplesmente deixar de cobrar a facada cheia.” A defesa não é por privilégio regional, mas pela generalização da alíquota civilizada sobre o consumo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão se o diagnóstico de Ostrowiecki vira roteiro de ação ou apenas mais um alerta ignorado: a divulgação dos relatórios semestrais sobre a “taxa das blusinhas” (primeiro sai ainda este ano), a disposição política para mexer nas despesas obrigatórias no próximo mandato e a trajetória da Selic frente à inadimplência recorde das famílias. Enquanto o juro real permanecer no patamar atual, qualquer ganho de produtividade — inclusive o de trabalhadores mais descansados — será engolido pelo custo do dinheiro.
