Saúde

Dois anos após rim da mãe, menino de 11 vive rotina “igual a qualquer criança”

Menino de 11 anos sorrindo ao ar livre, dois anos após transplante renal da mãe
Marcos Taylor, 11 anos, vive rotina normal dois anos após receber rim da mãe no HC Ribeirão Preto.

Marcos Taylor, hoje com 11 anos, corre, brinca e faz planos como qualquer garoto da idade — algo impensável até abril de 2024, quando recebeu o rim da própria mãe no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. A cirurgia marcou a retomada dos transplantes entre vivos na instituição após a pausa forçada pela pandemia. O que parecia um desfecho médico virou, na prática, um recomeço.

Dois anos depois, a rotina de exames e medicamentos continua, mas a cor voltou ao rosto do menino. “Ele era esverdeado, sem vida. Hoje ele tem cor. Ele voltou a viver”, resume a enfermeira Fratiane Ferreira Dias, 38, doadora e mãe.

O transplante que reinaugurou um programa

A operação de 22 de abril de 2024 foi a primeira entre doadores vivos no HC desde 2020. A compatibilidade entre mãe e filho beirava 100%, descoberta ainda em 2020, mas a Covid-19 adiou tudo. Enquanto esperavam, o quadro de Marcos piorava: infecções urinárias recorrentes, atraso no crescimento, limitações físicas cada vez maiores.

A decisão de Fratiane não veio do nada. Anos antes, ela já doava sangue e estava cadastrada para medula óssea. Quando o médico Ivan Caetano abriu a possibilidade, ela perguntou: “E se eu doar um rim para ele?”. A resposta veio em forma de bateria de exames — físicos, imunológicos, psicológicos. Todos deram verde.

Da gestação de risco à mudança de estado

A história começou cedo. Com 13 semanas de gravidez, um ultrassom no HC detectou válvula de uretra posterior no feto — anomalia que comprometeu os rins antes mesmo do nascimento. Aos 35 semanas, médicos avisaram: a situação era “incompatível com a vida”. Marcos nasceu mesmo assim, em Porteirinha (MG), mas a batalha renal só fazia começar.

Nos primeiros anos, Fratiane viajava 600 km ida e volta para consultas em Ribeirão Preto. Quando o filho completou 6 anos, a equipe pediu que ela morasse mais perto para não perder a vaga no acompanhamento. Ela pediu demissão, largou a cidade natal e recomeçou em Pontal (SP), a 30 km do hospital. “Comecei do zero. Foi difícil, mas eu tinha o que importava: a saúde dele.”

Vida de doadora: “minha vida é perfeita”

Dois anos pós-cirurgia, Fratiane não sente falta do rim. Pelo contrário: incorporou exercícios regulares, exames preventivos e uma atenção redobrada ao próprio corpo. “Minha vida é normal, igual era antes, ou até melhor. Eu não sinto falta desse rim.”

O depoimento dela quebra um mito recorrente: o de que doadores vivos ficam debilitados. A literatura médica confirma — a taxa de complicações graves em doadores de rim é inferior a 0,5%, e a expectativa de vida não muda. Fratiane é prova viva.

O que a ciência já sabe (e o que acompanhar)

  • Sobrevida do enxerto: rins de doadores vivos duram, em média, 15 a 20 anos — superior aos de doadores falecidos.
  • Adesão ao tratamento: Marcos faz exames trimestrais e toma imunossupressores diários. A regularidade é o maior preditor de sucesso a longo prazo.
  • Crescimento pós-transplante: crianças transplantadas costumam recuperar curvas de peso e altura nos primeiros 24 meses.

O HC de Ribeirão Preto retomou o programa de transplante entre vivos com protocolos atualizados: avaliação psicológica obrigatória, acompanhamento multidisciplinar por cinco anos e banco de dados para monitorar desfechos. Desde a reabertura, dezenas de cirurgias já foram realizadas.

O que observar daqui pra frente

Marcos entra na adolescência — fase em que a adesão ao tratamento costuma cair. A equipe médica reforça: a transição do acompanhamento pediátrico para o adulto é o momento mais crítico. Fratiane já sabe: “Ele precisa entender que se cuidar não é castigo, é liberdade”.

Para quem acompanha de fora, o caso ilustra três pontos práticos: doação entre vivos é segura, a compatibilidade familiar acelera o processo e a logística (morar perto do centro transplantador) pode definir o desfecho. No Brasil, a fila de espera por rim supera 20 mil pessoas. Cada transplante entre vivos abre uma vaga para quem não tem doador na família.

Dois anos. Um rim. Uma mãe que se jogou na frente da fila para o filho não precisar enfrentar ela. O resto é rotina — a melhor das rotinas.