Educação

Como uma escola pública está formando a nova geração do agro em 2 anos

Estudantes do ensino médio colhendo morangos em plantação escolar no interior de São Paulo
Alunos da Escola Estadual Comendador Antônio Figueiredo Navas na colheita de morango do projeto "Os segredos do campo"

Alunos do ensino médio estão trocando a sala de aula por plantações de banana, morango e uva em um programa que une gestão e prática no interior de São Paulo. O projeto “Os segredos do campo” coloca jovens de 16 e 17 anos diante de decisões reais de cultivo, colheita e comercialização. O resultado é uma formação que o mercado agroindustrial já observa de perto.

Da teoria à lavoura: como funciona o modelo

A Escola Estadual Comendador Antônio Figueiredo Navas, em Promissão, desenhou um currículo de dois anos que alterna aulas de administração com imersões técnicas em três propriedades parceiras. Não há estágio convencional: os estudantes participam do ciclo completo — do planejamento da safra à negociação do produto final.

A coordenadora Érica Cabral define a dinâmica como “benefício mútuo”. Produtores ganham olhar fresco sobre processos consolidados; alunos saem com portfólio de projetos aplicados, não apenas notas em provas.

Três culturas, três lições de gestão

Cada propriedade expõe um desafio distinto:

  • Banana: manejo de solo, controle fitossanitário e logística de transporte para mercados regionais.
  • Morango: agricultura protegida, precisão na irrigação e janelas curtas de comercialização.
  • Uva: poda técnica, gestão de safra e exigências de qualidade para vinícolas e mesa.

Tayla Raphaela e Kawane Petini, alunas do segundo ano, já enxergam aplicação direta para futuros negócios próprios. “É experiência de cuidar das propriedades”, resumem — frase que carrega mais peso de gestão do que parece.

O que o setor produtivo ganha com isso

Antônio Pereira Cabral, um dos produtores envolvidos, aponta para a renovação de ideias. O agro brasileiro envelhece: a idade média do produtor passa de 55 anos, segundo o último Censo Agropecuário. Programas que conectam juventude urbana à realidade rural funcionam como antecipação de sucessão e inovação.

Não há custos públicos adicionais além da estrutura escolar existente. As propriedades cedem tempo e espaço; a escola entra com currículo e supervisão. Modelo replicável, escalável e de baixo custo.

O que observar nos próximos ciclos

O primeiro turma completa o ciclo em 2026. Os projetos finais — planos de negócio baseados nas vivências — serão o termômetro real da eficácia. Se a taxa de inserção no setor (seja como empreendedores, técnicos ou gestores) superar a média nacional de evasão no agro jovem, o caso vira referência para secretarias de educação e federações de agricultura.

Enquanto isso, a equação segue simples: tempo de campo + base administrativa = perfil profissional que o mercado ainda não forma em escala. Promissão pode ser apenas o começo.