O número de eleitores com deficiência saltou 71% em São José do Rio Preto entre 2022 e 2026, chegando a 3.911 pessoas aptas a votar em outubro. A Justiça Eleitoral corre para adaptar a estrutura e garantir que ninguém fique de fora. Mas a acessibilidade real ainda esbarra em barreiras que vão muito além da urna.
O que mudou na prática para quem vai votar
O cartório eleitoral da cidade, sob comando de Régis Pistori, prepara um pacote de recursos que estreia ou retorna reforçado neste ano. Eleitores com deficiência visual cadastrados no sistema terão fone de ouvido habilitado automaticamente na urna — o áudio guia cada etapa da votação, do primeiro ao sexto voto.
Quem usa Libras contará com intérpretes nas seções. Há ainda uma tarjeta física indicando a sequência dos seis cargos em disputa, pensada para reduzir confusão e dar mais autonomia. O transporte gratuito, batizado de Seu Voto Importa, completa a lista: busca o eleitor em casa, leva até a seção e devolve depois.
- Áudio na urna para deficientes visuais cadastrados
- Intérpretes de Libras nas seções eleitorais
- Tarjeta com a ordem dos seis votos
- Transporte porta a porta para quem tem dificuldade de locomoção
O efeito direto no dia da eleição
Para o advogado Marcelo Lavezo, presidente da Comissão de Direito da Pessoa com Deficiência da OAB Rio Preto, a logística de deslocamento é o elo mais fraco. “Não adianta preparar a seção se a pessoa não consegue chegar lá com dignidade”, resume. O programa de transporte ataca exatamente esse ponto — e pode ditar a taxa de comparecimento desse público em outubro.
O atleta e técnico Paulo Jatobá, referência no basquete sobre rodas, vê avanços, mas cobra consistência. “A gente ainda fica brigando pela acessibilidade básica — saúde, educação, esporte. O voto é só mais uma frente”, diz. A fala ecoa o que muitos sentem: a estrutura eleitoral melhora, mas a cidade ao redor continua cheia de obstáculos.
Inclusão que não para no voto
A aposentada Maria das Graças Aristóteles Gonçalves, frequentadora do Instituto dos Cegos, resume com uma imagem forte: “Inclusão não é convidar para a festa, é tirar para dançar”. O músico e professor Nei Cândido dos Santos aponta a raiz do problema — a educação infantil. “Desde o prezinho precisamos falar de deficiência, mostrar o amiguinho diferente. Respeito se ensina cedo.”
Os números mostram a urgência: quase 4 mil eleitores com deficiência em um único município do interior paulista. Cada recurso novo na urna ou no transporte representa uma porta aberta. Mas a permanência nessa porta depende de políticas que não expiram no dia 6 de outubro.
O que observar daqui para frente
Acompanhe a execução do transporte Seu Voto Importa nas semanas que antecedem o pleito — a capilaridade do serviço definirá quantos desses 3.911 eleitores de fato comparecerão. Outro termômetro: a adesão de mesários voluntários treinados para operar os recursos de áudio e Libras. Falhas na ponta anulam o planejamento do cartório. Por fim, pressione candidatos a incluir acessibilidade urbana real nos planos de governo — porque o voto livre começa muito antes da urna.
