O Departamento de Transportes dos EUA publica na segunda-feira (28) novas metas de eficiência veicular até 2031, revertendo o rigor climático da gestão anterior. A promessa é baratear o carro zero-quilômetro, mas os próprios dados federais apontam uma conta bem mais salgada no longo prazo.
O que muda na prática a partir de segunda
A meta média de frota cai para 34,5 milhas por galão (14,7 km/l) em 2031. Para comparação, a regra de Biden exigia 50,4 mpg (21,4 km/l) no mesmo horizonte. Na prática, as montadoras ganham folga para vender modelos menos eficientes sem multas.
O governo estima uma redução de US$ 930 (cerca de R$ 4,8 mil) no preço médio de cada veículo novo. O secretário Sean Duffy classificou a medida como “vitória para o trabalhador da indústria”, ecoando o discurso de Trump de proteção ao setor produtivo nacional.
O impacto direto no bolso do consumidor
A economia na concessionária esconde o custo total de propriedade. Segundo as projeções do próprio Departamento de Transportes, a flexibilização vai injetar mais 100 bilhões de galões de combustível no mercado até 2050.
- Gasto extra com combustível: US$ 185 bilhões (R$ 961 bi) no acumulado;
- Emissões de CO₂: alta de aproximadamente 5% no período;
- Dependência externa: maior vulnerabilidade a choques de oferta de petróleo.
Pete Buttigieg, ex-secretário da pasta, resume o dilema: a medida acelera a perda de liderança tecnológica para a China e transfere o custo da bomba para o motorista comum.
Contexto: guerra no Oriente Médio pressiona a bomba
A decisão chega em momento sensível. Desde o final de fevereiro, o conflito envolvendo EUA, Israel e Irã disparou a cotação internacional do barril. Motoristas americanos já sentem o repasse nas ruas justamente quando o governo reduz a pressão por eficiência.
Sob Biden, a exigência subia 8% ao ano (2024-25), 10% em 2026 e 2% anuais até 2031. A proposta de Trump, desenhada em dezembro, prevê alta irrisória de 0,25% a 0,5% ao ano após um corte retroativo para modelos de 2022.
Cenários para o investidor e o gestor de frota
Para quem gere ativos ou planeja compras corporativas, a equação mudou. Carros a combustão ficam mais competitivos no capex inicial, mas o opex de frota tende a subir com a manutenção da demanda por gasolina e diesel em patamares elevados.
Ao mesmo tempo, a sinalização regulatória fragiliza o caso de negócio para infraestrutura de recarga e produção de baterias em solo americano — setores que dependiam da previsibilidade de metas agressivas para justificar capex bilionário.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a aposta de Trump se sustenta: a trajetória do preço do petróleo nos próximos 18 meses, a resposta das montadoras globais (que ainda precisam atender padrões rígidos na Europa e China) e a eventual judicialização das novas metas por estados como Califórnia. Quem opera no setor deve precificar cenários de volatilidade regulatória, não apenas de combustível.
