O Governo do Rio Grande do Norte oficializou situação de emergência por seca em 123 municípios, abrindo caminho para contratações emergenciais e garantindo a continuidade do abastecimento por carros-pipa. A medida, válida por 180 dias a partir de 28 de setembro, expõe a fragilidade hídrica de quase metade do estado. Mas o decreto esconde números que vão muito além da lista de cidades.
Reservatórios beiram o colapso total
A gravidade real está nos percentuais de volume morto. O açude Passagem das Traíras, por exemplo, opera com apenas 0,03% da capacidade — praticamente seco. Itans não vai melhor: 0,36%. Mesmo os maiores, como Boqueirão de Parelhas (7,81%) e Sabugi (7,6%), estão abaixo do limiar de segurança operacional.
Veja a situação crítica dos seis principais mananciais monitorados:
- Passagem das Traíras: 0,03%
- Itans: 0,36%
- Zangarelhas: 2,26%
- Esguicho: 5,27%
- Sabugi: 7,60%
- Boqueirão de Parelhas: 7,81%
Com níveis assim, a recarga natural no próximo ciclo chuvoso torna-se incerta, alongando o horizonte de risco para 2027.
O impacto direto na operação logística e no agronegócio
Setenta e sete municípios — 46% do total do estado — já dependem da Operação Carro-Pipa do Exército para abastecer a zona rural. O decreto federaliza o pedido de socorro: sem o reconhecimento da União, o fluxo de caminhões-pipa pode ser interrompido, jogando áreas urbanas no mesmo colapso que o campo já vive.
Para o setor produtivo, o sinal é claro: a infraestrutura hídrica entrou em modo de contingência. Projetos de expansão agropecuária ou industrial nas regiões Central e Agreste — onde o déficit de chuva bateu 18,7% e 16,5% respectivamente — devem precificar o custo de água privada ou a paralisação de atividades.
Déficit pluviométrico: o dado que antecipa o próximo ano
Entre março e agosto de 2026, o estado acumulou 596,9 mm contra 640,3 mm esperados. Parece pouco, mas a distribuição temporal assusta: em agosto, todas as mesorregiões registraram chuvas abaixo da média, com déficit estadual de 55%.
O Monitor de Secas da ANA confirma: a maior parte do território potiguar oscilou entre seca fraca (S0) e moderada (S1) no último levantamento. A transição para seca severa (S2) é uma questão de tempo se a quadra chuvosa de 2027 iniciar atrasada ou fraca.
O que o decreto libera na prática
Além da dispensa de licitação para obras e serviços de emergência, o texto autoriza a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Copdec) a assessorar prefeituras na burocracia do reconhecimento federal. É a ponte burocrática que mantém o dinheiro e os caminhões fluindo.
Mas há um detalhe estratégico: a dispensa de licitação, embora legal, exige compliance rigoroso posterior. Empresas do setor de engenharia, perfuração de poços e logística de água devem preparar documentação agora para serem elegíveis quando as chamadas públicas saírem.
Nove municípios no fio da navalha até dezembro
A Caern mapeou nove cidades onde o colapso hídrico pode atingir área urbana antes do fim de 2026, afetando diretamente mais de 63 mil pessoas: Currais Novos, Equador, Parelhas, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó, São João do Sabugi, Ipueira, São José do Seridó e Ouro Branco.
Nelas, o planejamento de contingência deixa de ser opcional. Gestores municipais e concessionárias privadas precisam alinhar planos de racionamento escalonado e captação alternativa imediata.
O que observar daqui para frente
O decreto vence em março de 2027, coincidindo com o fim da quadra chuvosa. Três variáveis definem se a emergência vira rotina ou exceção: volume de chuvas no primeiro trimestre, velocidade de execução das obras emergenciais licitadas por dispensa e a posição do governo federal sobre a renovação da Operação Carro-Pipa. Para quem investe ou opera no estado, o monitoramento desses três pilares deixa de ser “acompanhamento de notícia” e passa a ser variável de modelo de risco.
