Economia

Picanha subiu 7,8% no governo Lula — mas já custou 33% mais no mandato anterior

Picanha crua em tábua de madeira com etiquetas de preço comparando inflação 7,8% governo Lula vs 33% governo Bolsonaro
Picanha acumula alta de 7,8% no governo Lula contra 33,4% no governo anterior, segundo IPCA.

A picanha acumulou alta de 7,8% nos primeiros 44 meses da gestão Lula 3, contra 33,4% no intervalo equivalente do governo Bolsonaro. O dado vem do IPCA, compilado pelo economista Fábio Romão, da 4intelligence. Mas o alívio na taxa não significa alívio no bolso.

Por que o corte símbolo do churrasco brasileiro segue pesando no orçamento mesmo com inflação mais baixa? A resposta está no patamar de partida — e no que vem pela frente.

O que os números mostram de fato

A série do IPCA para picanha começa em janeiro de 2020. No governo Bolsonaro, de janeiro de 2020 a agosto de 2022, o corte subiu 33,4%. Estendendo até dezembro de 2022, a alta chega a 38%. No governo Lula, de janeiro de 2023 a agosto de 2026, o avanço fica em 7,8%.

A diferença de ritmo é nítida. Mas o preço nominal conta outra história: em agosto de 2026, o quilo de carnes de primeira custava R$ 50,49 em São Paulo, segundo Procon-SP e Dieese. Em agosto de 2022, era R$ 42,54. Em agosto de 2019, antes da pandemia, R$ 23,61.

A inflação desacelerou, mas partiu de uma base já elevada. O consumidor sente o nível, não a taxa.

Oferta recorde segurou os preços

O Brasil abateu 42,9 milhões de cabeças de bovinos em 2025 — recorde da série histórica do IBGE, iniciada em 1997. Alta de 8,2% sobre 2024, que já era o máximo anterior. A tendência de crescimento vem desde 2022.

No governo anterior, choques de pandemia, guerra na Ucrânia, dólar alto e clima adverso pressionaram o custo da ração animal. Agora, a oferta abundante atua como freio.

  • 2025: 42,9 milhões de cabeças abatidas (recorde histórico)
  • Crescimento: +8,2% frente a 2024
  • Tendência: alta contínua desde 2022

Em 2025, o Brasil superou os EUA e tornou-se o maior produtor mundial de carne bovina, além de maior exportador.

Endividamento freia repasse ao consumidor

Para Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, a oferta maior explica parte da inflação menor. A outra parte é o endividamento das famílias.

O brasileiro não consegue absorver reajustes agressivos na carne bovina. Migra para substitutos mais baratos: frango, suínos, embutidos, ovos. O consumo per capita de carne bovina caiu a 24,94 kg em 2021, recuperou para 30,79 kg em 2024, mas a projeção para 2026 é de 28,08 kg.

O ciclo da pecuária está virando

Iglesias aponta para uma inversão no ciclo pecuário. A retenção de fêmeas para reprodução reduz a oferta de abate nos próximos meses. Isso tende a sustentar preços altos nos cortes do traseiro — picanha, alcatra, maminha, filé mignon.

O El Niño, previsto para o final de 2026, adiciona risco climático à equação. Perdas no campo podem repassar para a gôndola.

Cerveja: simetria quase perfeita

A cerveja, também citada na promessa de campanha de 2022, subiu 19,5% no governo Lula (jan/2023 a ago/2026) e 19,2% no período equivalente do governo Bolsonaro (jan/2019 a ago/2022). Quase idêntico.

Alimentação no domicílio: o retrato amplo

Desde abril de 2020, a comida em casa subiu 60,8%, contra 42,7% do IPCA geral. Nos 44 meses de Lula 3, a alta é de 12,9%; nos 44 meses iniciais de Bolsonaro, 54,2%.

A desaceleração é real. O patamar, porém, permanece pressionado.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem o próximo capítulo: a retenção de fêmeas no campo, o comportamento do El Niño no verão 2026/27 e a capacidade de renda das famílias de sustentar demanda por proteínas nobres. Se a oferta encolher enquanto o endividamento segue alto, o consumidor verá menos churrasco e mais ovos na mesa — independentemente de quem ocupe o Planalto.