Cultura

O segredo por trás do reality que está reinventando a TV pública brasileira

Guitarristas no palco do reality Duelo de Guitarras da TV Brasil em competição musical
Seis guitarristas competem no 13º episódio de Duelo de Guitarras, reality inovador da TV Brasil.

A TV Brasil estreia neste sábado o 13º episódio de Duelo de Guitarras, reality que prova ser possível unir audiência, inovação de formato e fomento à indústria criativa sem abrir mão da identidade nacional. A atração coloca seis guitarristas em confronto direto, mas o verdadeiro diferencial está nos bastidores: um modelo de produção independente financiado via Prodav que pode se tornar referência para o mercado audiovisual.

O episódio de hoje (26/09), às 13h30, traz à tona a trajetória de Lui Rabello, baiana com 16 anos de banda Altas Horas no currículo. A veterana encara competidores com metade de sua idade e estilos que vão do metal ao baião. A dinâmica revela mais que técnica: expõe como a diversidade geracional e rítmica vira ativo de conteúdo.

Por que este formato chama a atenção do mercado

Diferente dos realities importados, Duelo de Guitarras nasceu de uma parceria entre o produtor Julio Carvana e o diretor Márcio Vianna. O roteiro prevê 16 episódios gravados em uma casa-estúdio, onde eliminados permanecem no convívio — apoiando finalistas, participando de jams e até restaurando instrumentos cenográficos. A convivência contínua gera material extra sem custo adicional de diárias.

Os números da estrutura impressionam pela eficiência:

  • 6 participantes fixos durante toda a temporada
  • 2 jurados-mentores (Navalha Carrera e João Gaspar) com dupla função
  • 1 apresentador que também é guitarrista (Dimi)
  • 1 convidado especial (Victor Biglione) para dia de gravação concentrada
  • Workshops integrados à rotina da casa, sem locação extra

O critério de julgamento que equilibra arte e competição

A banca avalia técnica e precisão (5 a 10 pontos) e emoção e criatividade (5 a 10 pontos). A soma simples evita subjetividade excessiva e torna o resultado compreensível para o público leigo. Os próprios competidores comentam performances uns dos outros, criando camadas narrativas sem necessidade de confessionais forçados.

O apresentador Dimi resume a filosofia: “é uma competição onde um guitarrista vence, mas ninguém sai perdendo”. A frase resume o posicionamento da emissora: conteúdo que forma plateia para a música instrumental sem transformar o fracasso em espetáculo.

O case Lui Rabello: experiência como diferencial competitivo

Aos 50 e poucos anos (a emissora não divulga a idade exata), Rabello entrou sabendo do risco: “uma pessoa com uma trajetória tocando com gente muito mais nova”. Sua estratégia foi recusar o óbvio. Escolheu xote na semifinal contra o blues de Lucas Moscardini, metaleiro capaz de “centenas de notas precisas por segundo”.

Ela explica a lógica: “não gosto de ser óbvia e busco chegar com elementos surpresa. A escrita é o mapa do tesouro. Sou da Bahia, tem que ter o suingue”. A frase sintetiza um ativo intangível: a identidade regional como assinatura artística em formato nacional.

O convívio surpreendeu a veterana: “esses meninos poderiam não me respeitar, mas foram muito carinhosos comigo e minha história”. O relato expõe um subproduto valioso do formato: a humanização de perfis técnicos, gerando conexão emocional com o espectador.

TV Brasil como vitrine da produção independente

O programa é exibido semanalmente desde julho, realizado via Prodav (Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual). A emissora pública se consolida como um dos principais canais de escoamento de obras independentes nacionais — papel que ganha relevância diante da concentração de grade nas redes privadas.

A distribuição multiplataforma amplia o alcance: sinal aberto, TV por assinatura, parabólica, TV Brasil Play (site e app Android/iOS) e WebTV. A gratuidade do aplicativo remove barreiras de acesso, métrica importante para anunciantes institucionais e editais de fomento.

O que observar daqui para frente

O modelo Duelo de Guitarras entrega três lições replicáveis: formato original de baixo custo por episódio, integração genuína entre formação de plateia e entretenimento, e uso estratégico de verba pública (Prodav) para gerar propriedade intelectual nacional. Se a audiência consolidar o horário das 13h30 de sábado, a TV Brasil terá provado que nicho musical instrumental sustenta grade comercial — lição valiosa para programadores e investidores em conteúdo.

Próximos passos: monitorar se a reexibição à meia-noite (sábado para domingo) captura público jovem adulto, e se o acervo de jams e workshops gera spin-offs digitais. O mapa do tesouro, como diria Lui Rabello, ainda tem muito a revelar.