A Rádio MEC transmite neste domingo (27), ao meio-dia e meia, um episódio que expõe como a queda de um ídolo reescreveu a história da música ocidental. O programa Caderno de Música dedica sua série “Música e História” à relação turbulenta entre Ludwig van Beethoven e Napoleão Bonaparte. A transmissão revela por que o compositor riscou o nome do líder francês da partitura de sua obra mais revolucionária.
O que começou como admiração virou repúdio em 1804. A decisão de Beethoven de retirar a dedicação a Napoleão da Sinfonia nº 3 não foi apenas um gesto pessoal — marcou o nascimento da música como ato político.
O momento em que a “Eroica” nasceu duas vezes
Originalmente batizada de “Buonaparte”, a Terceira Sinfonia ganhou o subtítulo “Eroica” depois que Napoleão se coroou imperador. Beethoven, furioso com a traição aos ideais republicanos, teria rasgado a página de dedicatória. O programa da Rádio MEC executa a obra completa com a Filarmônica de Berlim sob regência de Herbert von Karajan, incluindo a marcha fúnebre do segundo movimento — um dos trechos mais radicais já escritos para orquestra até então.
A escolha da gravação não é aleatória. Karajan registrou essa sinfonia múltiplas vezes, mas a versão selecionada para a rádio pública brasileira carrega peso histórico: foi um dos primeiros ciclos completos de Beethoven a circular globalmente em LP, ajudando a consolidar o cânone discográfico que ouvimos hoje.
Além da “Eroica”: o adeus e a vitória alheia
O episódio não para na Terceira Sinfonia. Dois outros pilares do repertório beethoveniano completam o panorama:
- Sonata nº 26 “Les Adieux” (Op. 81a): composta em 1809, quando Viena era ocupada pelas tropas francesas. Os três movimentos — “O Adeus”, “A Ausência”, “O Retorno” — narram a partida forçada do arquiduque Rodolfo, patrono e amigo do compositor.
- “A Vitória de Wellington” (Op. 91): peça de circunstância escrita para comemorar a derrota de Napoleão na Espanha. Beethoven usou efeitos sonoros de canhões e mosquetes, antecipando em um século o que o cinema faria com design de som.
Gerhard Oppitz assume o piano na “Les Adieux”. A Filarmônica de Berlim retorna para “Wellington’s Victory”, fechando o programa com a mesma formação que abriu a transmissão.
Por que uma emissora pública aposta nisso agora
A Rádio MEC dedica 80% de sua grade à música de concerto. Em um mercado dominado por algoritmos e playlists de 30 segundos, a emissora mantém horários fixos para obras integrais, contexto histórico e formação de plateia. O Caderno de Música existe há décadas com missão didática: explicar formas musicais, termos técnicos e o ofício de regentes, spallas e solistas.
A estratégia rendeu fidelidade. O público interage via WhatsApp ((21) 99710-0537) sugerindo pautas e tirando dúvidas ao vivo. A emissora opera em FM 99,3 MHz e AM 800 kHz no Rio, FM 87,1 MHz em Brasília e Belo Horizonte, além do app Rádios EBC e streaming no site radiomec.ebc.com.br.
O que observar daqui para frente
A série “Música e História” continuará mapeando interseções entre poder e partitura. Próximos episódios devem abordar Shostakovich sob Stalin, Wagner e o nacionalismo alemão, e a censura na era Vargas no Brasil. Para investidores em cultura e gestores de mídia pública, o caso da Rádio MEC demonstra como conteúdo de longa duração, curado por especialistas, constrói autoridade de marca sem depender de viralização.
Quem sintonizar domingo ouvirá mais que música. Ouvirá o som de um compositor decidindo que sua arte não serviria a tiranos — lição que ecoa em qualquer sala de reunião onde se negocia autonomia criativa.
