Economia

O que o debate ao Senado no Amazonas revela sobre o futuro da Zona Franca e da saúde na região

Debate televisionado para o Senado no Amazonas com seis candidatos no palco da Rede Amazônica
Candidatos ao Senado pelo Amazonas debatem Zona Franca e saúde em evento da Rede Amazônica

Seis candidatos subiram ao palco da Rede Amazônica na noite de sexta-feira (25) para o único debate televisionado da corrida ao Senado pelo estado. O que estava em jogo vai muito além de discursos de campanha: as propostas apresentadas desenham cenários concretos para a economia local, a continuidade do modelo Zona Franca e a estrutura de saúde que atende tanto a capital quanto o interior profundo.

A disputa tem nomes com peso político desigual — do senador Eduardo Braga (MDB), buscando a reeleição, ao governador Wilson Lima (União Brasil) licenciado do cargo para concorrer. Capitão Alberto Neto (PL), Plínio Valério (PSDB), Ismael Munduruku (Rede) e Professora Evanyr (PSOL) completam o quadro. A diversidade ideológica forçou confrontos diretos em temas que definem o ambiente de negócios na região.

A Zona Franca no centro do tabuleiro

O modelo econômico que sustenta o Amazonas há mais de 50 anos apareceu em todos os blocos. Braga defendeu a prorrogação dos incentivos fiscais até 2073 como “inegociável”, citando os R$ 30 bilhões anuais em faturamento do polo industrial. Wilson Lima lembrou que, como governador, negociou a manutenção dos benefícios na reforma tributária federal — mas evitou detalhar como compensar eventual perda de arrecadação estadual.

Alberto Neto e Plínio Valério convergiram na crítica à dependência exclusiva do modelo, propondo diversificação via agronegócio e mineração regulamentada. Munduruku e Evanyr condicionaram qualquer expansão econômica à consulta prévia, livre e informada às comunidades indígenas, conforme determina a Convenção 169 da OIT.

  • Polo Industrial de Manaus: 500 mil empregos diretos e indiretos (dados Suframa 2023)
  • Incentivos federais: válidos até 2073 pela Emenda Constitucional 109/2021
  • Reforma tributária: transição de 2029 a 2033 com fundo de desenvolvimento regional

O impacto direto para investidores está na previsibilidade. Quem opera ou planeja operar no polo precisa saber se o próximo senador atuará na blindagem jurídica dos incentivos ou na abertura de frentes alternativas de atração de capital.

Saúde: o gargalo que afeta produtividade

O colapso do sistema público durante a pandemia ainda ecoa. Braga propôs ampliar telemedicina via satélite para municípios isolados — 62 das 62 cidades do estado não têm leitos de UTI. Wilson Lima citou a construção de 5 hospitais de campanha permanentes, mas não apresentou cronograma de entrega.

Alberto Neto defendeu parcerias público-privadas para gestão de unidades, enquanto Valério focou em incentivo fiscal para empresas que instalem ambulatórios próprios no interior. Munduruku e Evanyr centraram a discussão na saúde indígena: falta de medicamentos básicos nas 34 terras indígenas homologadas e no território Yanomami, onde a malária segue endêmica.

Para o setor privado, a equação é clara: mão de obra saudável e logística de evacuação médica confiável reduzem absenteísmo e custos operacionais. A proposta mais estruturada veio de Braga, com orçamento estimado em R$ 1,2 bilhão via emendas de bancada — mas depende de articulação no Congresso.

Povos indígenas: da demarcação à bioeconomia

O tema atravessou todos os blocos. Munduruku, primeiro candidato indígena ao Senado pelo Amazonas, exigiu demarcação imediata de 14 terras em estudo pela Funai. Evanyr propôs fundo soberano da bioeconomia gerido por comunidades, com royalties de 3% sobre produtos derivados da biodiversidade.

Braga e Valério defenderam “segurança jurídica” para empreendimentos em áreas de sobreposição — leia-se: mineração e infraestrutura. Wilson Lima evitou posicionamento claro sobre o marco temporal, tema em julgamento no STF. Alberto Neto foi o único a defender explicitamente a tese do marco temporal como “paz no campo”.

O cenário prático: projetos de carbono, fármacos e cosméticos naturais travam hoje por insegurança fundiária. O próximo senador terá voto decisivo em projetos de lei que regulamentam o acesso ao patrimônio genético e repartição de benefícios — mercado estimado em US$ 50 bilhões globalmente.

O que observar nos próximos 30 dias

A campanha entra na reta final com três variáveis que podem virar o jogo: o horário eleitoral gratuito (início em 30/08), a adesão de prefeitos do interior — 40 dos 62 já declararam apoio a Braga — e o desempenho de Wilson Lima nas pesquisas, que oscila entre 18% e 24% nas últimas rodadas.

Para quem toma decisão de investimento ou expansão no Amazonas, o recado do debate é um só: a polarização nacional (Lula vs. Bolsonaro) chegou ao palanque local, mas os problemas estruturais — logística, energia, qualificação de mão de obra — exigem respostas técnicas que nenhum slogan resolve. O voto de 2 de outubro define quem sentará à mesa onde esses temas são negociados.