Tecnologia

O fim da única fábrica de chips do Brasil? O que está em jogo em 2026

Fábrica da Ceitec no Rio Grande do Sul, única produtora de semicondutores do Brasil
Ceitec, única fábrica de chips do Brasil, enfrenta risco de encerramento apesar de plano de modernização de R$ 220 milhões.

A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, defendeu o encerramento do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec) em encontro com empresários. A estatal gaúcha é a única fabricante de semicondutores do país e acaba de iniciar um plano de modernização de R$ 220 milhões.

A declaração reacende um dilema estratégico: o Brasil abre mão de sua soberania em semicondutores para economizar R$ 80 milhões ao ano, ou mantém um ativo que demora décadas para amadurecer? A resposta moldará a indústria nacional nos próximos mandatos.

O ativo que ninguém vê, mas todos usam

Criada em 2008 e vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Ceitec opera em Porto Alegre com projeto e fabricação de circuitos integrados. Seu produto mais conhecido, o CTC11002 — apelidado de “chip do boi” —, equipa brincos eletrônicos para rastreamento de rebanho por radiofrequência.

A tecnologia é 100% nacional. A produção comercial começou em 2011 na alemã X-FAB, mas a transferência para o Brasil avançou: em 2013, cerca de 30% das etapas já eram feitas em solo gaúcho. Hoje, a estatal detém 46 patentes e contabiliza 105 milhões de chips produzidos ao longo de sua história, segundo a associação dos empregados.

O abismo entre custo e receita

O argumento para a extinção é financeiro. No governo anterior, a defesa da liquidação baseava-se em despesas operacionais de R$ 80 milhões anuais frente a uma receita máxima histórica de R$ 7,8 milhões. Em 2024, ano de retomada operacional, o faturamento declarado foi de R$ 100 mil.

Os números expõem um descasamento real. Mas também ignoram a natureza de infraestrutura tecnológica: nenhuma fábrica de semicondutores no mundo nasce lucrativa. Taiwan levou 40 anos para consolidar a TSMC, hoje líder global, com aportes estatais contínuos desde o início.

O que muda com a nova rota tecnológica

Desde a reversão da liquidação, em novembro de 2023, a Ceitec mudou o foco. O plano atual prevê:

  • Investimento: R$ 220 milhões entre 2024 e 2026
  • Tecnologia: Semicondutores de potência em carbeto de silício (SiC)
  • Meta: Produção em escala até o fim de 2027
  • Aplicação: Eficiência energética, veículos elétricos, defesa

O carbeto de silício permite dispositivos que operam em temperaturas e tensões superiores ao silício tradicional. É matéria-prima crítica para a transição energética e para sistemas de mísseis, radares e satélites — setores onde o Brasil não pode depender de fornecimento externo.

O custo da dependência

Encerrar a Ceitec economizaria 0,0006% do PIB brasileiro. Em contrapartida, o país passaria a importar 100% dos chips que hoje projeta e parcialmente fabrica. A experiência recente de cadeias globais mostra que, em crises, quem não produz fica à mercê de quem produz.

O debate não é apenas contábil. É sobre qual posição o Brasil ocupará na cadeia de valor da economia digital: a de fornecedor de matéria-prima ou a de desenvolvedor de tecnologia proprietária.

O que observar daqui para frente

O destino da Ceitec será definido no próximo mandato presidencial. Três variáveis merecem monitoramento contínuo: a liberação integral dos R$ 220 milhões previstos no PAC, a capacidade da fábrica de demonstrar receita recorrente com chips SiC até 2027 e a posição do Congresso sobre a manutenção de estatais de base tecnológica. Quem investe ou empreende em hardware, IoT, defesa ou automotivo no Brasil deve tratar esse ativo como variável de risco estratégico — não como despesa de custeio.