A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, defendeu o encerramento do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec) em encontro com empresários. A estatal gaúcha é a única fabricante de semicondutores do país e acaba de iniciar um plano de modernização de R$ 220 milhões.
A declaração reacende um dilema estratégico: o Brasil abre mão de sua soberania em semicondutores para economizar R$ 80 milhões ao ano, ou mantém um ativo que demora décadas para amadurecer? A resposta moldará a indústria nacional nos próximos mandatos.
O ativo que ninguém vê, mas todos usam
Criada em 2008 e vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Ceitec opera em Porto Alegre com projeto e fabricação de circuitos integrados. Seu produto mais conhecido, o CTC11002 — apelidado de “chip do boi” —, equipa brincos eletrônicos para rastreamento de rebanho por radiofrequência.
A tecnologia é 100% nacional. A produção comercial começou em 2011 na alemã X-FAB, mas a transferência para o Brasil avançou: em 2013, cerca de 30% das etapas já eram feitas em solo gaúcho. Hoje, a estatal detém 46 patentes e contabiliza 105 milhões de chips produzidos ao longo de sua história, segundo a associação dos empregados.
O abismo entre custo e receita
O argumento para a extinção é financeiro. No governo anterior, a defesa da liquidação baseava-se em despesas operacionais de R$ 80 milhões anuais frente a uma receita máxima histórica de R$ 7,8 milhões. Em 2024, ano de retomada operacional, o faturamento declarado foi de R$ 100 mil.
Os números expõem um descasamento real. Mas também ignoram a natureza de infraestrutura tecnológica: nenhuma fábrica de semicondutores no mundo nasce lucrativa. Taiwan levou 40 anos para consolidar a TSMC, hoje líder global, com aportes estatais contínuos desde o início.
O que muda com a nova rota tecnológica
Desde a reversão da liquidação, em novembro de 2023, a Ceitec mudou o foco. O plano atual prevê:
- Investimento: R$ 220 milhões entre 2024 e 2026
- Tecnologia: Semicondutores de potência em carbeto de silício (SiC)
- Meta: Produção em escala até o fim de 2027
- Aplicação: Eficiência energética, veículos elétricos, defesa
O carbeto de silício permite dispositivos que operam em temperaturas e tensões superiores ao silício tradicional. É matéria-prima crítica para a transição energética e para sistemas de mísseis, radares e satélites — setores onde o Brasil não pode depender de fornecimento externo.
O custo da dependência
Encerrar a Ceitec economizaria 0,0006% do PIB brasileiro. Em contrapartida, o país passaria a importar 100% dos chips que hoje projeta e parcialmente fabrica. A experiência recente de cadeias globais mostra que, em crises, quem não produz fica à mercê de quem produz.
O debate não é apenas contábil. É sobre qual posição o Brasil ocupará na cadeia de valor da economia digital: a de fornecedor de matéria-prima ou a de desenvolvedor de tecnologia proprietária.
O que observar daqui para frente
O destino da Ceitec será definido no próximo mandato presidencial. Três variáveis merecem monitoramento contínuo: a liberação integral dos R$ 220 milhões previstos no PAC, a capacidade da fábrica de demonstrar receita recorrente com chips SiC até 2027 e a posição do Congresso sobre a manutenção de estatais de base tecnológica. Quem investe ou empreende em hardware, IoT, defesa ou automotivo no Brasil deve tratar esse ativo como variável de risco estratégico — não como despesa de custeio.
