A Master, gestora de recursos do grupo BTG Pactual, enviou R$ 303 milhões para o exterior com destino a um projeto de extração de petróleo na Venezuela. A operação envolve a Saber Energia, empresa venezuelana, e a Atma, firma de Hong Kong controlada pelo brasileiro Roberto Viana. O movimento levanta dúvidas sobre a estrutura do negócio e os riscos reais para os cotistas.
O aporte foi feito poucas semanas após a gestora captar recursos no mercado local com a promessa de diversificação internacional. Mas o destino do dinheiro — um país sob sanções americanas e com histórico de calotes — não estava no radar da maioria dos investidores. O que mais a gestora não contou?
Como a operação foi montada
Segundo documentos acessados pela reportagem, a Master estruturou o investimento por meio de um veículo no exterior. O capital sai do fundo no Brasil, entra em uma holding offshore e, dali, financia a aquisição de equipamentos para campos de petróleo operados pela Saber Energia. A Atma, de Roberto Viana, atua como parceira técnica e comercial.
A gestora não detalhou aos cotistas qual a participação exata da Atma no negócio, nem quais garantias existem caso a operação venezuelana não entregue a produção prometida. A estrutura em camadas dificulta o rastreamento do risco real.
Os números que chamam atenção
- R$ 303 milhões enviados em uma única remessa
- Destino: Venezuela, país com rating soberano em default desde 2017
- Parceiro local: Saber Energia, sem histórico público de grandes projetos
- Parceiro técnico: Atma (Hong Kong), controlada por Roberto Viana
Para efeito de comparação, o patrimônio total dos fundos da Master gira em torno de R$ 12 bilhões. Ou seja, cerca de 2,5% do capital sob gestão foi alocado em uma única operação de alto risco geopolítico.
Por que a Venezuela agora?
O governo Maduro tem oferecido condições atrativas para operadoras privadas: contratos de serviço com pagamento em petróleo, isenções fiscais temporárias e flexibilização de regras cambiais. A Saber Energia teria conseguido acesso a campos marginais da PDVSA, a estatal venezuelana.
Mas o cenário segue volátil. As sanções dos EUA foram parcialmente suspensas em 2023, mas podem ser retomadas a qualquer momento. Empresas que operam no país correm risco de bloqueio de ativos, proibição de transações em dólar e dificuldade de repatriação de lucros.
O que a gestora disse aos cotistas
Em comunicado interno, a Master classificou o investimento como “alternativo de longo prazo” e destacou o potencial de valorização dos ativos de petróleo. Não houve menção direta às sanções americanas, ao risco de default soberano ou à liquidez extremamente baixa do ativo.
Procurada, a gestora não respondeu aos questionamentos sobre:
- Qual a taxa de retorno esperada e em qual moeda
- Quais garantias contratuais existem contra expropriação
- Se há cláusula de saída antecipada para os cotistas
- Qual a exposição cambial líquida da operação
O efeito nos fundos multimercado
Cotistas de fundos multimercado da Master — que costumam ter mandato flexível — podem estar expostos sem saber. A regra da CVM permite que gestores aloquem até 20% do patrimônio no exterior sem detalhar cada operação individualmente, desde que a política de investimento preveja essa possibilidade.
Mas a concentração de R$ 303 milhões em um único projeto offshore foge ao padrão de diversificação que a maioria dos investidores espera. Especialistas em compliance ouvidos pela reportagem classificam a operação como “fora da curva” para o perfil de risco declarado dos fundos.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se esse dinheiro volta — e em que condições:
- Sanções EUA: qualquer endurecimento trava repatriação de divisas
- Produção real: a Saber Energia precisa provar que consegue extrair e escoar o petróleo
- Câmbio venezuelano: a diferença entre taxa oficial e paralela pode consumir margens
Investidores com posição nos fundos da Master devem solicitar à gestora o detalhamento da exposição direta e indireta a ativos venezuelanos. A CVM também pode exigir transparência adicional caso entenda que a política de risco foi descumprida. O próximo relatório mensal será o termômetro: se a gestora não abrir os números, o silêncio já é uma resposta.
