Tecnologia

Internet grátis na eleição: Anatel alerta STF sobre risco de colapso total

Smartphone sem sinal próximo a urna eletrônica, alerta de colapso de rede nas eleições 2026
Anatel alerta STF: internet grátis nas eleições pode causar colapso total de sinal.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) entregou ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), um parecer técnico que coloca em xeque a viabilidade de liberar o acesso irrestrito à internet móvel nos dias que antecedem e sucedem as eleições de 2026. O documento aponta para a possibilidade concreta de congestionamento severo e queda de sinal nas proximidades de zonas eleitorais.

O alerta responde a uma ação movida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e pelo Partido Verde (PV), que pedem franquia livre nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores a cada turno de votação.

O argumento da desigualdade digital

As entidades sustentam que o modelo atual de franquias pré-pagas cria uma barreira para as camadas mais pobres. Quando o crédito acaba, a velocidade cai drasticamente, restrigindo o acesso a aplicativos patrocinados — geralmente mensageiros — e dificultando a checagem de informações em fontes jornalísticas confiáveis.

Para os autores da ação, essa limitação alimenta a desinformação justamente no período mais sensível do processo eleitoral.

Por que a Anatel discorda

A agência rebate com dados de uma pesquisa própria, realizada em 2025: 70% dos usuários de planos pré-pagos já utilizam conexões Wi-Fi fixas (residenciais ou públicas) para poupar a franquia móvel. Ou seja, a maioria não depende exclusivamente do sinal da operadora para acessar a internet.

Além disso, a Anatel destaca uma diferença estrutural crucial:

  • Banda larga fixa: transmitida por cabos, com capacidade expansível praticamente sem limite.
  • Rede móvel: depende de espectro eletromagnético finito, transmitido pelo ar.

Liberar o tráfego em datas específicas, segundo o órgão, criaria um incentivo perverso: usuários antecipariam downloads pesados, streamings e atualizações para those dias, gerando picos de demanda que a infraestrutura não consegue absorver.

O cenário de colapso

O termo usado no parecer é taxativo: “colapso das redes de telecomunicações”. A Anatel prevê que a congestão impediria ou dificultaria a comunicação da população em um momento crítico para a democracia — inclusive para serviços de emergência e coordenação logística do próprio pleito.

Outro ponto levantado é a competência regulatória: a agência argumenta que a medida invadiria sua atribuição exclusiva de estabelecer regras para o setor de telecomunicações.

Próximos passos no STF

O ministro Zanin concedeu 48 horas para a manifestação da Anatel (prazo iniciado em 24 de setembro). Antes de decidir sobre o pedido de liminar, ele deve aguardar o parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O calendário eleitoral pressiona: o primeiro turno está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro (apenas para governador e presidente, se nenhum candidato passar de 50% dos votos válidos).

O que observar daqui para frente

A decisão do STF terá impacto direto na estratégia de comunicação de campanhas, na logística de fiscais de partido e na capacidade do eleitor de acessar informações em tempo real no dia da votação. Se a liminar for concedida, operadoras terão janela estreita para implementar a gratuidade sem degradação do serviço. Se negada, o debate sobre desigualdade de acesso digital nas eleições permanece aberto — e deve voltar à pauta em futuras legislaturas.