Justiça

Homem morre após 11 dias na UTI: o crime que expõe falhas na proteção a vítimas

Homem de 30 anos internado em UTI com queimaduras graves após ataque com álcool em Barreiras, Bahia
Marcelo da Silva Pinto permaneceu 11 dias na UTI do Hospital do Oeste antes de falecer

Um homem de 30 anos morreu na última sexta-feira (25) após passar 11 dias internado com queimaduras em 62% do corpo, vítima de um ataque ocorrido enquanto dormia em Barreiras, oeste da Bahia. A principal suspeita é a própria companheira, que teria jogado álcool e ateado fogo contra ele na madrugada de 14 de setembro.

O que se sabe até agora

Marcelio da Silva Pinto foi socorrido às pressas para o Hospital do Oeste, onde permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva. A gravidade das lesões — mais da metade do corpo queimado — tornava a sobrevivência improvável desde o primeiro boletim médico.

Segundo relatos de familiares à polícia, o casal não tinha filhos. A cama onde a vítima dormia também foi consumida pelas chamas, o que reforça a tese de emboscada premeditada durante o sono.

Investigação em curso e a dúvida sobre a prisão

A 1ª Delegacia Territorial de Barreiras registrou o óbito e expediu guias periciais e de remoção. Diligências estão em andamento para reconstruir a dinâmica exata do crime.

Questionada sobre a prisão da suspeita, a Polícia Civil não respondeu até o fechamento desta matéria. O silêncio oficial alimenta especulações sobre se houve flagrante, pedido de prisão preventiva ou se a investigação ainda coleta elementos para representar pela custódia.

O peso das queimaduras graves no sistema de saúde

Casos com mais de 60% de superfície corporal queimada exigem recursos intensivos: suporte ventilatório, controle de infecção, reposição volêmica agressiva e, frequentemente, cirurgias de enxerto. Cada dia de UTI para um paciente nesse perfil custa aos cofres públicos ou ao sistema suplementar valores que superam R$ 5 mil, sem contar insumos específicos.

Os 11 dias de internação de Marcelio representam, apenas em diárias de terapia intensiva, um investimento que se aproxima de R$ 60 mil — recurso que, no fim, não evitou o desfecho fatal.

Violência doméstica: o recorte que assusta

O uso de fogo ou substâncias inflamáveis como arma configura uma das formas mais letais de violência íntima. Dados nacionais mostram que agressões com queimaduras têm letalidade superior a 70% quando a área atingida ultrapassa 50% do corpo.

  • Álcool e querosene são os acelerantes mais comuns em ataques domiciliares
  • A madrugada é o horário de maior vulnerabilidade — vítima dormindo, sem chance de defesa
  • Laudos periciais em colchões e roupas de cama são decisivos para comprovar a intencionalidade

O que observar nos próximos dias

Três frentes definirão os desdobramentos: a conclusão do laudo pericial que atestará a causa da morte e a dinâmica do incêndio; a manifestação do Ministério Público sobre eventual pedido de prisão preventiva da companheira; e o depoimento de testemunhas que possam confirmar histórico de conflitos ou ameaças prévias.

O sepultamento ocorreu neste sábado (26), às 15h, mas o inquérito policial segue aberto. A tipificação final — homicídio qualificado por meio cruel, motivo fútil ou feminicídio — dependerá das provas colhidas e da interpretação do delegado responsável.

Lições para além do caso isolado

Episódios como este revelam gargalos: a demora na concessão de medidas protetivas quando há ameaças não fatais, a subnotificação de violência psicológica prévia e a dificuldade de retirar o agressor do convívio antes do ato extremo. Para gestores públicos e operadores do direito, o caso reforça a necessidade de protocolos mais ágeis de avaliação de risco em delegacias especializadas.

Enquanto a investigação avança, fica o alerta: sinais de escalada — ameaças de morte, controle financeiro, isolamento social — costumam anteceder a violência letal. Identificá-los a tempo continua sendo o maior desafio da rede de proteção.