Três dos principais nomes na corrida presidencial de 2026 defenderam, na mesma sexta-feira, o fim ou a taxação pesada das apostas esportivas online. O setor, que movimenta cerca de R$ 200 bilhões por ano, entrou na mira de propostas que vão da extinção total a alíquotas que equiparariam o jogo a cigarros e bebidas.
A ofensiva ocorreu em agendas simultâneas no Nordeste e no Sudeste, sinalizando que a regulamentação — ou a proibição — das “bets” será uma das bandeiras centrais do próximo mandato. Para investidores e operadores, o recado é claro: o modelo atual tem data para acabar.
O que cada candidato propôs na prática
No Recife, Lula (PT) foi direto: “Eu vou acabar com as bets”. A fala aconteceu durante ato de campanha pela manhã. À noite, o petista jantou com empresários em São Paulo, onde o tema também circulou nas conversas de bastidor.
Quase no mesmo horário, no bairro de Boa Viagem, Augusto Cury (Avante) classificou as apostas como “maior endividamento das famílias” e propôs taxa “concreta, grande”. Hoje o setor paga 12%; alimentos, 18%; remédios e energia, 32%.
No Rio, Flávio Bolsonaro (PL) prometeu proibir “o jogo do Tigrinho e o cassino online” caso eleito. A declaração foi feita durante formatura de policiais militares, onde vinculou o combate ao crime organizado ao veto aos jogos digitais.
Por que o mercado deve prestar atenção agora
Não é retórica isolada. Na quinta-feira (24), o governo já havia anunciado que bets que não solicitarem licença serão bloqueadas e saldos devolvidos aos apostadores. A medida entra em vigor nos próximos dias.
O Ministério da Fazenda estima arrecadação de R$ 12 a 15 bilhões em 2025 com a regulação atual. Se a promessa de extinção ou tributação máxima se confirmar, a receita projetada evapora — e o valuation das operadoras listadas ou em processo de IPO desaba.
- Cenário base: regulação mantida, arrecadação prevista confirmada.
- Cenário duro: extinção total (Lula/Bolsonaro) — mercado ilegal absorve demanda.
- Cenário fiscal: taxação equiparada a “bens de consumo nocivos” (Cury) — margem das operadoras comprimida a dígitos únicos.
Outros eixos que mexem com o bolso do empresariado
Enquanto o debate das bets dominava as manchetes, Ronaldo Caiado (PSD) percorreu o interior de Goiás defendendo renegociação de dívidas do agronegócio e seguro rural subsidiado para cobrir riscos climáticos — menção direta ao El Niño previsto para 2026/27.
Em Minas, Romeu Zema (Novo) fez corpo a corpo em cidades médias (Extrema, Cambuí, Ouro Fino) com discurso de desburocratização e atração de investimentos privados. A agenda incluiu rádios locais e almoço com lideranças do agronegócio mineiro.
Hertz Dias (PSTU) focou em educação: piso salarial, carreira e condições de trabalho. Edmilson Costa (PCB) debateu moradia e questão palestina no Rio. Renan Santos (Missão) rodou Franca (SP) e Triângulo Mineiro com comícios.
Quatro candidatos — Leonardo Avalanche, Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata) e Clariana Barão (DC) — não divulgaram agenda pública.
O que observar daqui para frente
A convergência entre PT, PL e Avante no veto às bets cria maioria política real no Congresso a partir de 2027. O projeto de lei que regulamenta o setor (PL 3.626/2023) pode ser revogado ou drasticamente alterado nos primeiros 100 dias do novo governo.
Para quem tem exposição direta — operadores, meios de pagamento, veículos de mídia que vendem publicidade — o horizonte de planejamento encolheu para meses. A recomendação de analistas de risco político: monte cenários de fluxo de caixa sem receita de apostas a partir do segundo trimestre de 2027.
O agronegócio, por sua vez, deve monitorar a tramitação de seguro rural federal e a renegociação de passivos do Funcafé e Pronaf — pautas que Caiado levará ao centro do debate se mantiver tração nas pesquisas.
