Os ETFs de Bitcoin à vista nos EUA encerraram a quinta-feira com o sexto dia seguido de entradas líquidas, somando mais de US$ 2,8 bilhões no período. O ritmo, contudo, mudou drasticamente: o pico de US$ 998,9 milhões na segunda-feira desabou para US$ 190,7 milhões na quinta — uma desaceleração de 81% na velocidade dos novos aportes.
O Bitcoin acompanhou o movimento. Após tocar US$ 87 mil no começo da semana, o ativo recuou para a região de US$ 83,8 mil. A pergunta que fica: a maré virou ou é apenas uma pausa?
Seis sessões, US$ 2,8 bilhões: o melhor trecho de 2026
A série começou em 17 de setembro. Em seis pregões, os fundos atraíram capital fresco todos os dias — algo raro neste ano. O volume total supera com folga qualquer outra janela semelhante em 2026.
O dia histórico foi a segunda-feira. Os US$ 998,9 milhões representaram a maior entrada única do ano e o melhor número desde outubro de 2025. Coincidiu com o momento em que o BTC rompeu US$ 87 mil.
Da terça em diante, a torneira foi fechando gradativamente:
- Terça-feira: US$ 714,7 milhões
- Quarta-feira: US$ 346,9 milhões
- Quinta-feira: US$ 190,7 milhões
A queda não significa saída de capital. Os fundos continuam recebendo — só que em ritmo cinco vezes menor que no pico. A distinção importa: fluxo positivo desacelerado é diferente de resgate.
BlackRock carrega o piano sozinha
Na quinta-feira, o IBIT da BlackRock respondeu por US$ 162,6 milhões dos US$ 190,7 milhões totais. Ou seja, 85% das entradas líquidas do dia vieram de um único emissor.
Nos seis dias, a gestora acumula cerca de US$ 1,35 bilhão — quase metade de todo o dinheiro novo da categoria. O domínio já era visível na quarta, quando o IBIT ultrapassou US$ 1 bilhão em entradas em apenas quatro sessões.
O restante do mercado na quinta:
- Fidelity (FBTC): US$ 12,9 milhões
- Morgan Stanley: US$ 10,2 milhões
- Franklin Templeton: US$ 4,9 milhões
- Bitwise: US$ 4,1 milhões
A WisdomTree foi a única com resgate líquido, de aproximadamente US$ 4 milhões.
O contraste com o início do ano é brutal
No fim de junho, os ETFs acumulavam déficit de US$ 5,5 bilhões em 2026. Junho sozinho teve cerca de US$ 4,5 bilhões em saídas. O cenário parecia irreversível.
Agosto virou o jogo: US$ 3,52 bilhões em entradas, o melhor mês do ano. Setembro começou ainda no vermelho em cerca de US$ 1 bilhão no acumulado anual.
A série atual fechou a conta. Em 24 de setembro, o saldo de 2026 marcava cerca de US$ 787 milhões positivos. Só setembro já contribui com US$ 2,56 bilhões.
Mas a memória curta do mercado cobra atenção. Em 15 de setembro — menos de duas semanas atrás — os mesmos fundos sangraram US$ 450,4 milhões em um único dia. Fidelity (-US$ 214,8M), BlackRock (-US$ 161,7M) e Grayscale (-US$ 44,1M) lideraram as saídas.
Derivativos voltam a esquentar enquanto ETFs esfriam
Enquanto os fluxos à vista perdem fôlego, o mercado de derivativos acelera. Brian Huang, cofundador da Glider, aponta que o interesse aberto nos futuros de Bitcoin retornou aos níveis de maio. Só na Hyperliquid, há US$ 3,3 bilhões em posições perpétuas abertas.
Uma base negativa combinada com alta no interesse aberto pode indicar abertura de posições vendidas — apostas na queda.
A sexta-feira traz outro gatilho: cerca de US$ 15,6 bilhões em opções de Bitcoin expiram na Deribit, representando quase 182 mil BTC. Vencimentos desse porte costumam ampliar a volatilidade no curto prazo.
O que observar daqui para frente
Três sinais ditam o próximo capítulo. Primeiro: se o IBIT mantiver entradas acima de US$ 100 milhões diários, a estrutura de demanda segue saudável mesmo com o mercado lateral. Segundo: o comportamento dos derivativos — se o interesse aberto continuar subindo com base negativa, a pressão vendedora pode superar o apetite dos ETFs. Terceiro: o nível de US$ 83,8 mil no Bitcoin. Perder essa região com volume abre caminho para testar suportes mais baixos; segurar pode preparar novo ataque a US$ 87 mil.
O balanço anual finalmente verde é um marco psicológico importante. Mas a queda de 81% no ritmo diário em três sessões mostra que o apetite institucional permanece sensível ao preço. Quem lê apenas o acumulado do mês perde a mudança de marcha que já está em curso.
