O Brasil entra no ano eleitoral de 2026 exibindo os melhores números do mercado de trabalho da série histórica do IBGE. A taxa de desocupação caiu para 5,3% no trimestre até julho, ante 9,1% no mesmo período de 2022. Mas, por trás das manchetes otimistas, especialistas veem rachaduras que o próximo presidente herdará — e que podem reverter o ganho atual.
Os recordes que mascaram a fragilidade
Os dados da Pnad Contínua são inegáveis: o nível de ocupação atingiu 58,9% e o total de empregados com carteira no setor privado chegou a 39,4 milhões, patamares inéditos desde 2012. O rendimento médio também subiu. Em tese, o cenário é de plenitude.
Na prática, a economista Janaína Feijó, do FGV Ibre, alerta que a melhora quantitativa esconde um agravamento qualitativo. “O mercado está desacelerando. Se o país não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos”, resume. Juros altos e crescimento mais fraco ameaçam sustentar esse piso histórico.
A informalidade que teima em não cair
Mesmo com o boom de vagas formais, 37,5% da força de trabalho seguem na informalidade — percentual que já superou 40% no passado. O fenômeno ganha nova face com a plataformização: cerca de 2 milhões de brasileiros tinham no aplicativo sua ocupação principal ou secundária em 2025.
- 26,8% buscam flexibilidade de horário;
- 24,6% não encontraram outra alternativa;
- 20,8% ganham mais do que em vagas tradicionais.
Para Feijó, a reforma trabalhista de 2017 não previu esse modelo. “Uma parte desses trabalhadores está totalmente descoberta”, afirma. O motoboy Felipe Zuppo, 38, trocou a CLT pelos apps e participou de grupo tripartite no governo que não chegou a consenso. “A lei não foi como gostaríamos. Passar lei só por passar não dá”, diz ele.
Pejotização e MEI: a conta que vai chegar na Previdência
Outro pilar da precarização, na visão de analistas, é o uso do MEI como substituto de contratação formal. Feijó classifica o mecanismo como “bomba fiscal”: o microempreendedor recolhe 5% de um salário mínimo ao INSS, contra alíquotas patronais e empregado que superam 30% na CLT.
A comunicadora Nicole Guedes, 22, viveu os dois lados. Formada em universidade pública, passou dois anos como PJ atraída pela flexibilidade. Hoje, comemora a carteira assinada em um pet shop no ABC paulista: “Trabalho 6×1, mas tenho benefícios”. O relato ilustra a armadilha: a autonomia aparente costuma cobrar o preço da ausência de rede de proteção.
IA, superqualificação e o engenheiro motorista
Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, nota que o mercado ficou mais resistente a choques graças à flexibilização de 2017 e ao surgimento das plataformas. Porém, aponta um descompasso perigoso: a economia não absorve a mão de obra qualificada que forma. “É o engenheiro que virou motorista de Uber. É meme, mas é verdade”, exemplifica.
A inteligência artificial ameaça justamente as vagas de entrada — o degrau onde recém-formados ganham experiência. Some-se a isso a longevidade acelerada corroendo a Previdência e a desigualdade de networking, que afasta talentos de periferias das melhores oportunidades.
O que os presidenciáveis propõem para o abismo
As pré-campanhas já desenham rotas opostas para o mesmo problema:
- Lula (PT): Regulamentar trabalho por apps com direitos previdenciários e transparência algorítmica; combater pejotização; fim da escala 6×1 com jornada de 40h sem corte salarial.
- Flávio Bolsonaro (PL): Reduzir custo do trabalho; contratos mais baratos para jovens (18-24) e 50+; priorizar Bolsa Família em qualificação.
- Romeu Zema (Novo): Regime alternativo à CLT com negociação livre de jornada (diária >8h, limite 44h/semana) e menos encargos.
- Ronaldo Caiado (PSD): Ensino técnico focado em IA, automação, dados e cibersegurança.
- Augusto Cury (Avante): Empreendedorismo como antídoto ao desemprego tecnológico; transformar Bolsa Família em porta de entrada no mercado.
O que observar nos próximos meses
A resiliência do emprego formal será testada pela trajetória da Selic e pelo arcabouço fiscal. Se o PIB desacelerar forte, a informalidade — hoje amortecida por apps e MEI — pode voltar a subir rápido. A regulação do trabalho por plataforma, travada no Congresso, é o termômetro imediato: sua aprovação ou rejeição sinalizará se o país opta por estender direitos ou consolidar a dualidade. Para o investidor e o empresário, a variável-chave não é o dado de hoje, mas a capacidade do próximo governo de transformar recordes pontuais em estrutura perene.
