O Brasil chega à eleição de 2026 com a menor taxa de desocupação da série histórica — 5,3% no trimestre até julho — e um recorde de 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado. O nível de ocupação bateu 58,9%, também o maior já registrado para o período. Mas, por trás dos indicadores positivos, rachaduras estruturais ameaçam transformar o cenário atual em um problema caro para o próximo governo.
A economia desacelera, os juros permanecem elevados e a informalidade insiste em rondar 37,5% da força de trabalho. Para quem toma decisões de negócio ou aloca capital, a pergunta não é se o mercado de trabalho está forte, mas até quando essa força resiste sem correção de rota.
Os números que ninguém contesta
A Pnad Contínua do IBGE desenha um quadro quantitativo robusto. Em julho de 2022, o desemprego estava em 9,1%; hoje, está quase pela metade. A população ocupada cresceu de forma consistente, puxada pelo setor privado formal e pelo avanço do trabalho por conta própria.
Esse desempenho sustentou a massa salarial e manteve o consumo aquecido mesmo com a Selic em dois dígitos. Para o varejo, serviços e a indústria de bens não duráveis, foi um colchão importante. O problema é que a qualidade desse emprego não acompanhou a quantidade.
A rachadura por trás do recorde
Economistas ouvidos pela reportagem convergem em três alertas. Primeiro: a desaceleração da atividade já começou a morder a geração de vagas formais. Segundo: a reforma trabalhista de 2017 deu flexibilidade, mas não resolveu a proteção de novas modalidades. Terceiro: o custo fiscal da informalidade disfarçada — sobretudo via MEI — cresce em silêncio.
Janaína Feijó, do FGV Ibre, resume: “Se o país não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos. Mesmo com cuidado, não vamos voltar a ver essas mínimas.” A plataforma de entregas e transportes é o exemplo mais visível. Dois milhões de brasileiros tinham esse trabalho como ocupação principal ou secundária em 2025. Desses, 26,8% citaram flexibilidade como motivo; 24,6%, falta de alternativa; 20,8%, rendimento superior.
Plataformas e MEI: a conta que não fecha
O motoboy Felipe Zuppo, 38, trocou a carteira assinada pelo aplicativo em 2012. Em 2023, participou de grupo de trabalho no governo que não chegou a consenso sobre a regulação da categoria. “A lei não foi como gostaríamos. Nós somos trabalhadores e ficamos sem direitos trabalhistas.”
Para Feijó, o MEI virou “bomba fiscal”: acolhe quem não entra na CLT com contribuição previdenciária de apenas 5% do salário mínimo. A arrecadação não cobre o benefício futuro. Enquanto isso, a pejotização avança em setores de alta qualificação, transferindo risco ao trabalhador e reduzindo a base de financiamento da Previdência — justamente quando a longevidade acelera.
- Informalidade: 37,5% no trimestre até julho (já superou 40% na série)
- Trabalhadores de apps: ~2 milhões em 2025 (Pnad Contínua módulo anual)
- Motivos para apps: flexibilidade (26,8%), falta de outro emprego (24,6%), rendimento maior (20,8%)
- MEI: contribuição de 5% do salário mínimo — insuficiente para custear aposentadoria
O engenheiro no volante: qualificação desencontrada
Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, nota que o mercado ficou mais resistente a choques. A flexibilização de 2017 e o surgimento de ocupações de plataforma criaram uma “válvula de escape” que absorve mão de obra mesmo com juros altos. Mas há um custo oculto: a má alocação de talento.
“É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade”, diz Sartori. A comunicadora Nicole Guedes, 22, formada em universidade pública, atende em pet shop no ABC paulista. Foi PJ por dois anos; hoje comemora a CLT com benefícios, ainda que em escala 6×1. “Gostava da flexibilidade de PJ, mas precisava de segurança.”
O descompasso entre formação, demanda empresarial e redes de contato penaliza quem vem de comunidades sem networking. Empresas relatam dificuldade para preencher vagas técnicas enquanto diplomados aceitam postos abaixo da qualificação.
O que os presidenciáveis propõem (e o que fica de fora)
As pré-candidaturas já sinalizam direções opostas para o nó trabalhista:
- Lula (PT): ampliar proteção, manter valorização do salário mínimo, combater pejotização, regular plataformas com direitos e transparência algorítmica, fim da escala 6×1, jornada de 40h sem redução salarial, requalificação e mudanças no financiamento previdenciário.
- Flávio Bolsonaro (PL): reduzir gradualmente custo do trabalho, priorizar beneficiários do Bolsa Família em emprego e qualificação, criar contratos mais baratos para jovens 18–24 anos e desempregados 50+.
- Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT com negociação livre de jornada, remuneração e férias, dia acima de 8h com teto de 44h semanais, menos encargos.
- Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico, requalificação, currículos voltados a IA, automação, dados e cibersegurança.
- Augusto Cury (Avante): empreendedorismo contra desemprego por IA, transformar Bolsa Família em porta de entrada no mercado.
- Renan Santos (Missão): sem propostas específicas para mercado de trabalho; defende liberdade para negócios crescerem.
Nenhuma das plataformas detalha como equilibrar a conta previdenciária com a expansão da informalidade regulada — ou como financiar a transição de trabalhadores de apps para um modelo com proteção sem repassar o custo integral ao consumidor final.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo do mercado de trabalho nos próximos 18 meses e devem estar no radar de quem gere pessoas, investe ou planeja expansão:
- Trajetória da Selic e crédito: juros altos freiam contratação formal e empurram mais gente para PJ ou apps.
- Regulação de plataformas: qualquer modelo que crie direitos sem fonte de custeio clara vira passivo trabalhista ou pressão de preço.
- Reforma da Previdência (nova rodada): propostas com idade mínima de 67 anos e capitalização sinalizam que o financiamento atual é insustentável — o que afeta custo de contratação e planejamento de longo prazo.
O paradoxo de 2026 é claro: nunca se empregou tanto formalmente, mas nunca a estrutura de proteção esteve tão pressionada. Quem antecipar as fissuras — e não apenas comemorar os recordes — sai na frente.
