Oito candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Sul subiram ao palco da RBS TV na sexta-feira (25) para um confronto direto, mas foi o nome de um banqueiro — e suas ligações com o STF — que dominou a noite. O escândalo do Banco Master ofuscou propostas econômicas e de segurança, deixando o eleitor com uma dúvida incômoda: qual deles tem independência para legislar sobre o sistema financeiro?
O debate, transmitido ao vivo pelo g1, reuniu representantes de oito partidos em uma disputa única pela vaga. A dinâmica em blocos forçou embates diretos, mas também revelou convergências perigosas em temas sensíveis.
Quem está na disputa e como funcionou o formato
Por ordem alfabética, participaram: Frederico Antunes (PSD), Manuela d’Ávila (PSOL), Marcel Van Hattem (Novo), Milton Cardoso (PSDB), Pimenta (PT), Renato Jaguarão (Cidadania), Rigotto (MDB) e Sanderson (PL). O sorteio definiu a ordem de fala e os temas de cada bloco, impedindo roteiros ensaiados.
Cada candidato teve tempo para considerações finais — momento em que tentaram colar sua imagem a pautas de nicho, como agronegócio, direitos digitais ou combate ao feminicídio. A íntegra está disponível em vídeo, mas o que não está no roteiro oficial importa mais.
O fantasma do Banco Master pairando sobre o plenário
O assunto que cortou transversalmente todos os blocos não era uma pauta de campanha: era o esquema de corrupção envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. As acusações de relações do banqueiro com ministros do Supremo e parlamentares em exercício transformaram o debate em um tribunal improvisado.
Nenhum candidato escapou da pergunta — direta ou indireta — sobre como garantir a autonomia do Congresso frente a pressões do sistema financeiro. As respostas variaram entre promessas de CPIs, defesa da PEC da transparência no Judiciário e ataques genéricos à “velha política”.
Os temas que realmente afetam seu bolso e sua segurança
Além do escândalo bancário, a pauta obrigatória incluiu:
- Endividamento das famílias gaúchas — RS lidera inadimplência no Sul;
- Regulamentação das bets — impacto fiscal e social das apostas online;
- Fundo Constitucional do RS — disputa por recursos federais;
- Feminicídios e crimes digitais — alta de 18% nos registros em 2023;
- Mudanças climáticas — reconstrução pós-enchentes de maio.
Sobre economia, a divergência foi nítida: enquanto candidatos de centro-direita defenderam corte de gastos e reforma tributária simplificada, a esquerda propôs taxação de grandes fortunas e ampliação de programas de transferência de renda.
Segurança pública: o discurso que não se sustenta sozinho
Todos prometeram “tolerância zero” ao crime organizado. Poucos explicaram como financiar polícias estaduais sem onerar o caixa do Estado — que já gasta mais de 90% da receita líquida com folha e encargos. A proposta de federalização de presídios apareceu em duas falas, mas sem detalhar a transição.
O candidato do Novo foi o único a citar dados: RS tem a 3ª maior taxa de policiais por habitante, mas a 5ª pior resolução de homicídios. A plateia notou o silêncio dos demais sobre gestão versus discurso.
O que observar daqui para a frente
O calendário eleitoral acelera: propaganda no rádio e TV começa em 30 de agosto, e o primeiro turno é em 6 de outubro. Até lá, três variáveis definem o jogo: a evolução das investigações sobre o Banco Master no STF, a adesão do eleitorado ao voto útil nas pesquisas de setembro, e a capacidade de cada campanha transformar tempo de TV em narrativa coesa — não em reprises de considerações finais.
Para o empresário ou investidor gaúcho, o sinal está dado: a próxima legislatura terá peso decisivo na regulamentação do mercado de apostas, na destinação do Fundo Constitucional e na blindagem (ou não) do Congresso contra interferências do sistema financeiro. Acompanhe os relatórios de transparência de campanha — eles revelam mais que qualquer debate televisionado.
