Oito candidatos ao Senado pelo Rio Grande do Sul se enfrentaram na sexta-feira (25) em um debate que escapou do roteiro esperado. O que era para ser uma troca de propostas virou arena de acusações diretas sobre o escândalo do Banco Master.
O banqueiro Daniel Vorcaro e suas ligações com ministros do Supremo Tribunal Federal dominaram os blocos. Mas há um detalhe que passou despercebido na maioria das análises — e que pode definir o voto de indecisos nas próximas semanas.
O fato que mudou o tom do encontro
Diferente de debates anteriores, não houve espaço para generalidades. Candidatos de espectros opostos — do PL ao PSOL — convergiram para o mesmo alvo: a suspeita de que recursos do Banco Master teriam irrigado campanhas e influenciado decisões no STF.
Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL) pressionaram pela instalação de uma CPI exclusiva. Manuela d’Ávila (PSOL) e Pimenta (PT) cobraram transparência nos inquéritos em curso. O consenso raro expõe a gravidade do tema para o eleitorado gaúcho.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que 73% dos eleitores do RS consideram corrupção o principal problema do país. O debate fez essa ferida sangrar ao vivo.
Temas que atingem o bolso do eleitor
Se a corrupção foi o foco político, três assuntos tocaram a rotina das famílias:
- Endividamento: RS tem a 2ª maior taxa de famílias endividadas do Sul (serasa, agosto/2024)
- Bets e jogos online: Crescimento de 340% em apostas no estado em 12 meses
- Feminicídio: 94 casos registrados apenas no primeiro semestre de 2024
Milton Cardoso (PSDB) propôs renegociação compulsória de dívidas bancárias. Rigotto (MDB) defendeu taxação pesada das plataformas de apostas. Frederico Antunes (PSD) sugeriu fundo estadual de proteção à mulher.
Mas o embate mais tenso veio quando o tema mudou para o fundo constitucional.
O embate pelo dinheiro que Brasília deve ao RS
O Rio Grande do Sul reivindica R$ 12,7 bilhões em compensações da Lei Kandir e do Fundo de Participação dos Estados. Pimenta (PT) acusou a bancada federal de omissão. Sanderson (PL) rebateu citando veto presidencial a emendas da bancada gaúcha.
Renato Jaguarão (Cidadania) propôs ação direta no STF. A ironia não passou despercebida: o mesmo tribunal citado no escândalo do Banco Master seria o árbitro da disputa financeira.
Essa contradição — confiar no STF para receber recursos enquanto se denuncia sua proximidade com investigados — deve reaparecer nas sabatinas individuais.
Segurança e clima: propostas concretas ou retórica?
No bloco de segurança, Sanderson (PL) e Van Hattem (Novo) defenderam polícia ostensiva armada e penas mais duras. Manuela d’Ávila (PSOL) contrapropôs investimento em inteligência policial e políticas de renda para juventude periférica.
Sobre mudanças climáticas — tema inevitável após as enchentes de maio —, todos citaram reconstrução. Poucos detalham como financiar. Antunes (PSD) mencionou linhas do BNDES. Jaguarão (Cidadania) falou em títulos verdes estaduais.
Cardoso (PSDB) foi o único a citar número: R$ 4,3 bilhões em projetos parados por licenciamento ambiental.
O que observar daqui para frente
O debate expôs rachas que não seguem a polarização nacional tradicional. A convergência entre direita e esquerda no tema corrupção sugere que o eleitor gaúcho pode punir quem tentar minimizar o caso Banco Master.
Próximos passos: sabatinas individuais na RBS TV (agendadas para 2 a 6 de setembro), propaganda no rádio e TV a partir de 30 de agosto, e pesquisa Ipec prevista para 10 de setembro. O candidato que transformar a indignação com o STF em proposta legislativa clara — sem cair no discurso vazio de “combate à corrupção” — tende a capturar o voto útil.
Fique atento às declarações de bens atualizadas. No RS, quem financia campanha costuma ditar o mandato.
