O Brasil entra no ano eleitoral com o menor desemprego da história recente — 5,3% no trimestre até julho — e 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada, recorde absoluto. Por trás dos números positivos, porém, esconde-se uma fragilidade estrutural que o próximo presidente herdará: quase 40% da força de trabalho ainda atua na informalidade.
A expansão do emprego formal não impediu o avanço da pejotização, da uberização e do descompasso entre formação e demanda. Especialistas alertam: sem ajuste fiscal e regulação moderna, os ganhos atuais podem se evaporar.
O paradoxo dos recordes
Dados da Pnad Contínua mostram que a taxa de ocupação atingiu 58,9% no mesmo período, o melhor nível da série histórica iniciada em 2012. Em 2022, o desemprego estava em 9,1%. A melhora quantitativa é inegável.
Mas a economista Janaína Feijó, do FGV Ibre, aponta o risco imediato: a economia desacelera e os juros altos freiam a criação de vagas formais. “Se o país não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos”, resume.
O motoboy Felipe Zuppo, 38, ilustra a transição. Teve carteira assinada, migrou para aplicativos em 2012 e participou de grupo de trabalho no governo Lula que não chegou a consenso sobre regulação. “A lei não foi como gostaríamos. Somos trabalhadores e ficamos sem direitos”, diz.
Os quatro gargalos que o próximo presidente enfrenta
Especialistas convergem para quatro desafios centrais que atravessam governos e ideologias:
- Plataformização sem proteção: 2 milhões de brasileiros tinham trabalho principal ou secundário em apps em 2025. Para 26,8%, a flexibilidade foi o atrativo; 24,6% citaram falta de alternativa.
- MEI como “bomba fiscal”: O regime absorve trabalhadores sem vínculo CLT com contribuição de apenas 5% do salário mínimo, pressionando a Previdência.
- IA e vagas de entrada: Automação ameaça postos iniciais, justamente onde jovens e menos qualificados ingressam no mercado.
- Descompasso educacional: Engenheiros dirigindo Uber viraram símbolo real de uma formação que não dialoga com a demanda empresarial.
Reforma de 2017: escudo ou insuficiência?
Para Rodolpho Sartori, da Buysidebrazil, a flexibilização da reforma trabalhista e o surgimento de ocupações em apps tornaram o mercado mais resistente a choques. Os indicários seguraram-se mesmo com juros altos e PIB fraco.
Essa resiliência, porém, não resolve a absorção de mão de obra qualificada. “É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade”, afirma Sartori.
A informalidade, embora abaixo do pico histórico de 40%, estacionou em 37,5%. A redução estagnou justamente quando o emprego formal mais crescia.
O que propõem os presidenciáveis
As pré-candidaturas já desenham abordagens distintas:
- Lula (PT): regulamentação de apps com direitos e transparência algorítmica, fim da escala 6×1, valorização do salário mínimo e combate à pejotização.
- Flávio Bolsonaro (PL): redução gradual do custo do trabalho, contratos mais baratos para jovens 18-24 e desempregados 50+.
- Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT com negociação livre de jornada, férias e remuneração, teto de 44 horas semanais.
- Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico focado em IA, automação, dados e cibersegurança.
- Augusto Cury (Avante): empreendedorismo como resposta ao desemprego tecnológico e Bolsa Família como porta de entrada no mercado.
O que observar nos próximos meses
O cenário macroeconômico ditará o ritmo: se o ajuste fiscal avançar e os juros caírem, a formalização pode acelerar. Caso contrário, a pressão por regulação de apps e revisão do MEI tende a virar pauta obrigatória no primeiro ano do próximo mandato.
Para empresários e investidores, o sinal claro é a necessidade de planejar contratações considerando um arcabouço trabalhista em transição — e um mercado onde qualificação técnica e adaptabilidade valem mais que diplomas tradicionais.
