Economia

Bolívia: o colapso do modelo do gás e a conta que Rodrigo Paz não pode adiar

A Bolívia vive um paradoxo brutal: filas quilométricas nos postos de combustível em um país que construiu sua riqueza recente sobre o gás natural. O modelo ruiu, e a fatura chegou inteira ao colo de Rodrigo Paz.

Como um governo que nadava em dólares do gás chegou a ter apenas US$ 52 milhões em reservas líquidas? A resposta explica por que o ajuste em curso vai muito além de planilhas fiscais — e por que a rua já decidiu que também vota na economia.

O ciclo que se fechou sem aviso prévio

Durante a bonança, o gás encheu os cofres, bancou subsídios e segurou o câmbio. A produção, porém, entrou em declínio há mais de dez anos. As exportações caíram junto, mas o Estado manteve o ritmo de gastos e a promessa de combustível barato — cada vez mais importado com dólares que deixaram de entrar.

Menos gás vendido significou menos divisas. Menos divisas tornaram a importação de diesel e gasolina inviável. O resultado: reservas internacionais consumidas, mercado paralelo de câmbio florescendo e escassez paralisando transporte e produção.

A herança em números que assustam

Paz assumiu com um déficit fiscal projetado em 9,1% do PIB para 2024. Das reservas de US$ 3,17 bilhões, apenas US$ 52 milhões tinham liquidez imediata. Em poucos meses, tenta fazer o ajuste que governos anteriores adiavam há anos.

  • Acordo com o FMI: US$ 1,9 bilhão aprovados pelo Congresso, potencial para destravar mais US$ 5 bilhões de organismos multilaterais.
  • Metas do programa: reduzir o déficit, cortar financiamento do Banco Central, flexibilizar o câmbio e eliminar subsídios aos combustíveis.
  • Primeiro choque: fim do subsídio ao diesel. O litro saltou de 9,80 para 17,95 bolivianos (de R$ 4,14 para R$ 7,57).

O diagnóstico que incomoda

Para Julio Córdova, economista e sociólogo à frente do instituto Diagnosis, o nó não é apenas a falta de gás no subsolo — é a ausência de capital para explorar novas reservas. A produção declinante drenou os dólares que sustentavam o modelo. A aposta agora é atrair investimento externo de volta, inclusive da Petrobras, com quem o governo negocia a retomada da exploração.

Mas o remédio tem efeitos colaterais imediatos. Combustível mais caro encarece frete, alimentos e insumos industriais. A resistência, antes restrita a setores diretamente atingidos, ganhou corpo transversal.

Quando a rua entra na equação econômica

Entre maio e junho, foram 53 dias de bloqueios de estradas e avenidas. A repressão veio acompanhada de estado de emergência, prorrogado por mais 90 dias. Agora, professores e setores da classe média voltam às ruas, enquanto cresce a rejeição ao acordo com o Fundo.

O dado crucial: na Bolívia, a mobilização social não é ruído de fundo — é variável decisiva. Governos caíram por menos. Paz sabe que tem meses para mostrar resultados antes que a conta política se torne impagável.

A virada geopolítica que ninguém ignora

A mudança não é só econômica. Em entrevista no Chapare, Evo Morales apontou para a torre onde operava a DEA antes de expulsá-la em 2008: “Aposto que, se a direita ganhar, a DEA volta”. Paz ganhou. A cooperação antidrogas com os EUA foi restabelecida após 17 anos. Canais com Washington reabertos. Alinhamento ao projeto de segurança regional de Donald Trump, concretizado.

FMI na economia. DEA na segurança. Duas faces de uma troca de ciclo em um país que divide com o Brasil mais de 3.400 quilômetros de fronteira — e interesses comerciais, energéticos e de segurança que não podem ser desprezados.

O que observar daqui para frente

O ajuste fiscal avança, mas a ancoragem política é frágil. Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos meses: a velocidade da recomposição das reservas, a capacidade de atrair investimento em exploração de gás sem novas concessões que pareçam “entreguismo”, e a tolerância social a uma inflação que já bate na cesta básica. Para quem opera na região, a Bolívia deixou de ser um caso de estudo macroeconômico e virou risco operacional concreto.