Três dos principais nomes na corrida ao Planalto defenderam, no mesmo dia, o fim ou a taxação pesada das apostas esportivas; um quarto prometeu renegociação de dívidas e seguro climático para o agronegócio. O recado do mercado é claro: o setor de jogos e o campo entram na mira da próxima gestão.
A sexta-feira (25) de campanha serviu de termômetro para entender onde cada candidatura pretende mexer na economia real. Enquanto a agenda oficial mostrava caminhadas e comícios, as falas dos candidatos desenharam cenários concretos para quem investe, empreende ou gere risco no Brasil.
O consenso inesperado contra as bets
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante) divergiram em quase tudo — menos no alvo: as casas de apostas esportivas. Lula foi direto: “Eu vou acabar com as bets”. Flávio Bolsonaro prometeu proibir “o jogo do Tigrinho, o cassino online”. Cury, por sua vez, propôs taxação agressiva, comparando os atuais 12% do setor aos 18% dos alimentos e 32% dos remédios.
Para o setor, que movimenta bilhões e emprega milhares em tecnologia e marketing, o sinal é de incerteza regulatória imediata. Três candidaturas com bases eleitorais distintas convergindo no mesmo ponto elevam a probabilidade de medida efetiva em 2027, independentemente de quem vença.
Agro: renegociação e seguro climático na pauta
Ronaldo Caiado (PSD) usou o interior de Goiás para detalhar a proposta mais estruturada do dia para o agronegócio. Defendeu renegociação ampla de dívidas rurais e a criação de seguro rural obrigatório para cobrir eventos climáticos extremos, citando nominalmente o El Niño previsto para os próximos meses.
“Não pode ficar nas costas do produtor rural os riscos”, afirmou. A medida, se implementada, transfere parte do custo climático para o Tesouro ou para fundos mutualizados — impacto direto no orçamento e no custo de capital do setor.
Segurança pública como variável de custo Brasil
No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro participou de formatura da Polícia Militar e declarou que, se eleito, “declarará guerra ao crime organizado”. A retórica de confronto direto tem apelo eleitoral, mas empresários do varejo, logística e serviços urbanos sabem que a execução dessa promessa define custos de seguro, frete e expansão de filiais nas grandes capitais.
Não há detalhe operacional no discurso — nem orçamento, nem prazo, nem integração com polícias civis e federais. O vazio de implementação mantém o risco alto para quem precifica ativos expostos à violência urbana.
Educação e mão de obra: a promessa de longo prazo
Hertz Dias (PSTU), em Belo Horizonte, centrou fala na valorização do piso salarial e carreira dos professores. “Educação de qualidade não se faz com cortes de verbas”, disse. Embora a candidatura tenha baixa projeção eleitoral, o tema reflete pressão crescente por recomposição real do Fundeb e impacto na folha de municípios e estados — que, por sua vez, afeta a capacidade de investimento em infraestrutura local.
Ausências que também falam
Leonardo Avalanche, Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata) e Clariana Barão (DC) não divulgaram agendas públicas. Rui Costa Pimenta (PCO) limitou-se a entrevistas em canais alternativos. A falta de exposição de propostas econômicas por esses nomes reduz a amplitude do debate sobre reforma tributária, câmbio e política industrial — temas que seguem sem dono definido na campanha.
O que observar daqui para frente
- Regulamentação das bets: acompanhe se o Congresso antecipa votação de projeto que blinde ou extinga o setor antes da posse;
- Orçamento do seguro rural: a proposta de Caiado exige fonte de recursos — veja se aparece no PLOA 2027;
- Plano nacional de segurança: cobrar dos líderes nas pesquisas um documento com metas, verbas e integração federativa;
- Fundeb e piso do magistério: pressão de prefeitos e governadores por repasse federal pode antecipar debate no segundo turno.
A sexta-feira não teve anúncio de reforma tributária nem de política cambial. Mas mostrou, em tempo real, quais setores entram na linha de tiro do próximo governo. Quem precifica risco no Brasil já tem três variáveis novas na planilha: bets, clima no agro e segurança urbana. O resto é ruído de campanha.
