Economia

WEG dobra aposta no armazenamento: fábrica de baterias em SC ganha novo fôlego

Fábrica da WEG em construção para sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) em Itajaí, SC
Ampliação da fábrica de baterias da WEG em Itajaí reforça aposta no mercado de armazenamento de energia

A WEG (WEGE3) confirmou nesta sexta-feira (25) a ampliação do projeto de sua fábrica de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), em construção na cidade de Itajaí, litoral norte de Santa Catarina. O movimento sinaliza que a multinacional enxerga o mercado de armazenamento como eixo estratégico para a próxima década — e não apenas como aposta complementar.

O anúncio original, feito em fevereiro, já previa uma unidade de ponta. Agora, a companhia revisa o escopo para cima. O que mudou nos últimos oito meses para justificar o passo extra?

O que o comunicado revela — e o que deixa nas entrelinhas

A WEG não divulgou o valor adicional do aporte nem a nova capacidade instalada projetada. Informou apenas que a ampliação atende a “demandas de mercado” e reforça a competitividade da plataforma tecnológica própria. Em linguagem corporativa, isso costuma significar duas coisas: carteira de pedidos acima do esperado e necessidade de ganhar escala antes que concorrentes estrangeiros ocupem o espaço.

Dados do setor ajudam a dimensionar o cenário. Segundo a Associação Brasileira de Armazenamento de Energia (Abase), o Brasil deve adicionar entre 2 GW e 3 GW de capacidade de armazenamento até 2028, puxado por leilões de reserva de capacidade e pela expansão de usinas solares e eólicas que precisam despachar energia fora do pico de geração.

Por que Itajaí? A lógica por trás do endereço

A escolha não foi aleatória. A região concentra a malha logística portuária mais eficiente do Sul do país (Porto de Itajaí e Navegantes), mão de obra técnica formada pelos polos industriais de Joinville e Blumenau, e proximidade com a sede histórica da WEG, em Jaraguá do Sul. Isso reduz custos de frete de componentes importados — células, BMS, inversores — e acelera a curva de aprendizado da linha de montagem.

  • Porto a 15 km da planta: agiliza importação de células e exportação de sistemas integrados.
  • Cluster eletromecânico maduro: fornecedores de transformadores, quadros e automação a poucos quilômetros.
  • Incentivos estaduais: Santa Catarina oferece regimes especiais de ICMS para projetos de inovação industrial.

O efeito cascata na cadeia de valor

A ampliação não impacta apenas o balanço da WEG. Fornecedores de estrutura metálica, climatização industrial, engenharia de incêndio e software de gestão de energia (EMS) tendem a receber pedidos de maior volume e prazos mais longos. Pequenas e médias empresas da região já relatam consultas para contratos de manutenção preditiva e comissionamento de campo.

Mas o efeito mais relevante aparece no lado do cliente final. Com mais capacidade de produção local, a tendência é redução de lead time — hoje na casa de 8 a 12 meses para sistemas importados — e maior flexibilidade de customização para usinas híbridas, data centers e grandes consumidores industriais que buscam autonomia energética e redução de demanda de ponta.

Cenários para os próximos trimestres

Três variáveis vão ditar o ritmo da fábrica ampliada:

  • Leilões de reserva de capacidade: o próximo certame, previsto para o primeiro semestre de 2025, deve contratar pelo menos 500 MW de armazenamento — demanda imediata para a linha de Itajaí.
  • Preço das células de lítio: após queda de 40% em 2023, o mercado projeta estabilização em 2024. Qualquer alta sustentada comprime margens de integradores.
  • Regulação de conexão: a Aneel ainda discute regras de medição e faturamento para sistemas híbridos. Definições claras destravam projetos parados na fase de estudo.

O que observar daqui para frente

Investidores e gestores de energia devem monitorar três indicadores concretos nos próximos relatórios da WEG: (1) receita líquida da divisão de energia — hoje cerca de 12% do consolidado — e sua taxa de crescimento orgânico; (2) backlog de projetos BESS assinados versus em negociação; (3) taxa de utilização da capacidade instalada em Itajaí, que deve ser reportada a partir do início da operação comercial, previsto para o segundo semestre de 2025. A ampliação anunciada hoje só faz sentido se esses números confirmarem a tese de que o armazenamento deixou de ser nicho para virar motor de receita recorrente.