Economia

Presidenciáveis 2026: O que as agendas de quinta revelam sobre o rumo da economia

Candidatos à Presidência 2026 em atos de campanha no Brasil, economia e propostas
Principais presidenciáveis cumprem agendas pelo país revelando visões econômicas distintas para 2027.

Os principais candidatos à Presidência usaram a quinta-feira (24) para desenhar, na prática, o Brasil que prometem construir a partir de 2027. Entre carreatas no Centro-Oeste e atos no Nordeste, emergiram propostas que mexem diretamente com custos de segurança, mão de obra, infraestrutura logística e ambiente regulatório — variáveis que todo empresário e investidor precisa precificar.

A agenda não foi apenas ceremonial: ela expôs divergências profundas sobre como o Estado deve atuar na economia e na sociedade. A pergunta que fica é qual desses vetores terá força para virar política pública no primeiro ano de mandato.

Segurança e custos operacionais: a aposta no endurecimento

Flávio Bolsonaro (PL) escolheu Teófilo Otoni (MG) para reiterar duas bandeiras de alto impacto para o setor produtivo: declarar “guerra ao narcotráfico” e reduzir a maioridade penal. A lógica apresentada vincula a repressão ao crime organizado à queda de custos logísticos — roubos de carga, extorsão em rotas e insegurança em áreas de expansão agroindustrial.

Para o varejo e a indústria, a promessa de endurecimento penal sinaliza possível redução de seguros e perdas por furto, mas carrega o risco de superlotação prisional sem plano de ressocialização, o que historicamente eleva custos estaduais a médio prazo.

Clariana Barão (DC) foi na mesma direção ao defender que agressores de mulheres não passem por audiência de custódia. A proposta, se implementada, altera fluxos do Judiciário e do sistema penitenciário — setores que já demandam aporte bilionário dos estados.

Educação e infraestrutura: o vetor de produtividade de longo prazo

Em Maceió, Lula (PT) ancorou o discurso em dois pilares clássicos de ganho de produtividade: a conclusão da transposição do São Francisco e a expansão de escolas de tempo integral. A obra hídrica, se entregue com regularidade, reduz o risco hídrico no semiárido — ativo crítico para agronegócio, energia e saneamento.

Já a escola de tempo integral ataca o gargalo da formação de mão de obra. Dados do IBGE mostram que trabalhadores com ensino médio completo ganham, em média, 2,3 vezes mais que os sem instrução. Universalizar o modelo exige, contudo, investimento estimado em 1,5% do PIB ao ano — cifra que só cabe com reforma tributária ou realocação de gastos.

Amazônia e bioeconomia: discursos que mexem com licenças e investimentos

Augusto Cury (Avante) percorreu Cuiabá, Porto Velho e Manaus defendendo “cuidado com carinho e responsabilidade” na Amazônia, equilibrando preservação e produção. A fala sinaliza para um marco regulatório que tente conciliar licenciamento ambiental ágil com rastreabilidade — demanda antiga de frigoríficos, madeireiras certificadas e fundos de investimento verde.

O candidato não detalhou instrumentos, mas a menção a “produção agrícola e industrial” na mesma frase sugere abertura a pagamentos por serviços ambientais e crédito de carbono regulado, temas que podem destravar bilhões em blended finance nos próximos anos.

O que os “sem agenda” e os nichos dizem sobre fragmentação

Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata) não tiveram compromissos públicos. A ausência reforça a dificuldade de partidos menores furarem a bolha midiática — o que, na prática, mantém o debate concentrado em meia dúzia de nomes e reduz a pressão por pautas inovadoras em simplificação tributária ou desburocratização.

Já Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB) focaram em mobilização de classe e programa anticapitalista. Embora sem viabilidade eleitoral, suas pautas — fim da escala 6×1, estatizações, auditoria da dívida — funcionam como termômetro de pressão sindical que o próximo governo enfrentará no Congresso e nas ruas.

Gestão local como vitrine de gestão nacional

Romeu Zema (Novo) usou a rádio Jovem Pan Campinas e a visita ao Centro de Referência do Autismo em Jaguariúna para exibir o “modelo Minas”: choque de gestão, parcerias público-privadas em saúde e atração de indústria via desoneração estadual. O recado ao mercado: experiência executiva testada em segundo maior PIB estadual.

Ronaldo Caiado (PSD) fez o contraponto goiano: caminhada em Goiânia, carreata em Senador Canedo e entrevista no Rio Grande do Sul. A geografia da agenda — Centro-Oeste e Sul no mesmo dia — desenha a base eleitoral do agronegócio exportador e da indústria de transformação, setores que respondem por cerca de 45% do PIB brasileiro.

Cenários para os próximos 30 dias: o que monitorar

  • Detalhamento de financiamento: nenhum candidato apresentou fonte de recursos para as propostas de infraestrutura e educação integral. O primeiro debate televisivo (previsto para outubro) tende a forçar esse número.
  • Reforma tributária na prática: Zema e Caiado devem ser pressionados a explicar como seus estados operarão o novo IVA dual sem perder competitividade interestadual.
  • Licenciamento ambiental: a fala de Cury na Amazônia pode virar projeto de lei se houver articulação com a bancada ruralista e a Frente Verde no Congresso.
  • Segurança como custo Brasil: propostas de endurecimento penal exigem orçamento — observe se haverá menção a fundo nacional de segurança ou transferência obrigatória a estados.

O fechamento desta quinta-feira não define a eleição, mas mapeia o menu de opções que o setor produtivo terá à mesa em 2027. A decisão de alocar capital, expandir plantas ou contratar dependerá, nos próximos meses, de quão críveis soarem os números por trás dos discursos.