O Papa Leão XIV desembarcou em Paris nesta sexta-feira (25) com um recado urgente: a inteligência artificial ameaça transformar a Terra em um “paraíso de máquinas” que condiciona e invade o cotidiano humano. A declaração, feita sob os tetos dourados do Palácio do Eliseu, coloca a ética tecnológica no centro de sua primeira visita oficial à França em quase duas décadas.
O alerta que ecoa além do Vaticano
Diante do presidente Emmanuel Macron, o pontífice argentino-americano foi direto: “Se quisermos evitar perder nossa humanidade, há uma necessidade urgente de educação em discernimento ético”. A frase resume a cruzada de 16 meses de papado — a primeira liderada por um papa nascido nos Estados Unidos — que elegeu os riscos da IA como prioridade pastoral.
Não se trata de tecnofobia. Leão XIV reconhece o potencial transformador da tecnologia, mas insiste que o desenvolvimento movido exclusivamente pelo lucro abre portas para manipulação genética, comércio de órgãos, barriga de aluguel e a “possibilidade de planejar a própria morte”.
Uma agenda densa em solo laico
A França de 2025 é radicalmente diferente da que recebeu João Paulo II pela última vez. A lei de 1905 garante separação estrita entre Igreja e Estado, e o INSEE aponta que apenas 25% dos franceses entre 18 e 49 anos se declaram católicos — queda de 18 pontos percentuais em uma década.
Mesmo assim, a visita tem peso político. O roteiro de quatro dias inclui:
- Sexta (25): Discurso na UNESCO, órgão que enfrenta déficit após saída dos EUA em 2025
- Sábado (26): Cerimônia na Catedral de Notre-Dame restaurada — primeira visita papal desde o incêndio de 2019
- Domingo (27): Encontro com sete vítimas de abuso clerical em Lourdes
- Segunda (28): Discurso sobre o futuro da Europa em Metz, na fronteira com a Alemanha
O fantasma dos abusos e a cobrança por justiça
O relatório de 2021 abalou as estruturas: 330 mil crianças francesas abusadas por clérigos e leigos católicos ao longo de setenta anos. Alain Esquerre, 66, porta-voz das vítimas de Notre-Dame de Bétharram, resume a expectativa: “Leão carrega a imensa responsabilidade de ‘dizer basta'”.
Bispos franceses implementaram medidas de compensação e proteção desde então. Vítimas pressionam por responsabilização concreta — não apenas gestos simbólicos. O encontro de domingo em Lourdes será o teste mais sensível da visita.
Choque de valores com o governo Macron
Duas frentes de atrito marcam a relação Igreja-Estado atualmente. A primeira: a inclusão do direito ao aborto na Constituição francesa, aprovada em 2024 — medida inédita no mundo. A segunda: a legalização do suicídio assistido para adultos com doenças incuráveis, sancionada dois meses atrás.
Leão XIV classificou ambas como “tendências que correm o risco de transformar a ciência e a tecnologia em empreendimentos movidos pelo lucro”. O Vaticano vê nessas leis a mercantilização da vida e da morte.
Liberdade de imprensa e a sombra de Trump
No voo para Paris, o papa reafirmou apoio à liberdade de imprensa ao ser questionado sobre a tentativa de Donald Trump de barrar a CNN e outros veículos da Casa Branca. “Todos são bem-vindos para cobrir minha visita”, disse. O primeiro papa americano já havia criticado a política externa de Trump em relação ao Irã no início do ano.
O que observar nas próximas semanas
A visita termina na segunda-feira, mas os desdobramentos vão além do protocolo. Três pontos merecem atenção de quem acompanha geopolítica, tecnologia e direitos humanos:
- O discurso na UNESCO pode sinalizar como a Santa Sé pretende influenciar a governança global de IA
- O encontro com vítimas em Lourdes ditará o tom da resposta institucional aos abusos históricos
- A recepção do discurso sobre o futuro da Europa em Metz revelará se há espaço para voz religiosa no debate continental secularizado
Leão XIV deixou claro: a tecnologia não é o inimigo. O perigo está na ausência de bússola ética. Para empresários e formuladores de política, o recado é direto — inovação sem discernimento não é progresso, é risco existencial.
