A 16ª Festa Literária das Periferias (Flup) ocupa o centro do Rio até domingo (27) com uma programação que transcende o circuito cultural tradicional. O evento transforma a Praça Tiradentes e o Teatro Carlos Gomes no epicentro de uma revolução silenciosa: a consolidação do feminismo negro como motor de inovação simbólica e econômica no Brasil.
O tema desta edição — As Filhas das Filhas das Filhas — não é apenas um recorte poético. Segundo o diretor Julio Ludemir, a escolha expõe a “grande revolução em curso no Brasil, decorrente das ações afirmativas”. Para gestores e investidores, o recado é claro: a produção de conhecimento nas periferias deixou de ser margem para ditar tendências de mercado, comportamento e legislação.
A imortal que reescreve o valor do ativo literário
A homenageada Ana Maria Gonçalves sintetiza essa virada. Primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ela é autora de Um Defeito de Cor, obra que Ludemir classifica como “o livro mais importante da história da literatura brasileira”. A protagonista Kehinde encarna uma capacidade de empreendedorismo e resistência que espelha a trajetória real de milhões de mulheres negras — um ativo humano subavaliado por décadas.
Essa narrativa atrai olhares globais. No sábado (26), às 16h, Gonçalves e Jurema Werneck entrevistam Kimberlé Crenshaw, criadora do conceito de interseccionalidade. O encontro não é simbólico: a interseccionalidade hoje fundamenta políticas de diversidade corporativa, compliance ESG e gestão de risco reputacional em multinacionais.
Agenda de alto impacto: onde o conhecimento gera rede
A curadoria da Flup funciona como um hub de conexão entre pensamento acadêmico, arte popular e economia criativa. Veja os nós estratégicos da programação deste fim de semana:
- Sábado (26) – 14h às 15h30: Chico Regueira entrevista Nei Lopes em “A cidade inventada pelo samba” — case estudo de como a cultura de base estrutura identidade urbana e turismo de experiência.
- Sábado (26) – 16h: Diálogo com Kimberlé Crenshaw — acesso direto ao framework teórico que move bilhões em investimentos de diversidade no mundo.
- Domingo (27) – 14h: “Ninguém poderia me parir senão eu mesma”, com Linn da Quebrada e Vita Pereira — radiografia da nova economia de criadores e narrativas de autonomia.
- Domingo (27) – 16h: “Quando existíamos apenas nós e Ubirajara Fidalgo”, com Antonio Pitanga, Dom Filó e Helena Theodoro — memória como ativo estratégico para preservação de direitos e territórios.
O efeito nos pequenos negócios e na economia da cultura
Ludemir destaca que a Flup, desde 2018, atua como catalisadora do feminismo negro — definido por ele como “a grande novidade política, cultural, artística, sociológica, que está mudando a sociedade a partir da sua base”. Essa base movimenta cadeias produtivas: editoras independentes, sebos, produtoras de eventos, moda, gastronomia e tecnologia social.
A ocupação da Praça Tiradentes, espaço histórico requalificado, demonstra o potencial de retorno sobre investimento (ROI) cultural em áreas centrais degradadas. O fluxo de público qualificado — estudantes, pesquisadores, agentes culturais, turistas de nicho — injeta demanda imediata no comércio local e sinaliza para o poder público a viabilidade de políticas de ocupação contínua.
Por que isso pode mudar o próximo trimestre
A presença de Crenshaw no Brasil não é um fato isolado. Ela valida, em solo nacional, a linguagem técnica que grandes fundos e conselhos de administração buscam implementar. Quem acompanha a Flup acessa, em tempo real, a tradução prática de conceitos que daqui a seis meses estarão em relatórios de sustentabilidade e manuais de RH.
Além disso, a homenagem a Gonçalves na ABL sinaliza uma reconfiguração no mercado editorial. Clássicos contemporâneos escritos por mulheres negras deixam de ser “tema de nicho” para integrar o cânone obrigatório — o que altera curadorias de livrarias, grade curricular e aquisições de bibliotecas corporativas.
O que observar daqui pra frente
A programação completa está no site oficial, mas o recado final já foi dado: a produção intelectual nas periferias deixou de pedir licença para ocupar o centro. Para o profissional de negócios, a lição prática é monitorar quais narrativas emergem desses palcos. Elas antecipam demandas de consumo, novas lideranças e marcos regulatórios. Ignorar a Flup hoje equivale a perder o mapeamento do principal vetor de inovação social do país nos próximos anos.
