Dez líderes de algumas das maiores empresas do país cravaram o mesmo diagnóstico: o próximo governo tem o ajuste fiscal como prioridade absoluta, mas ninguém espera que ele aconteça com uma canetada no dia da posse.
A condição prévia, segundo o consenso, é recuperar a confiança — um ativo que, diferentemente de juros ou câmbio, não se decreta por decreto.
A armadilha da “bala de prata” e o custo da desconfiança
Em encontro reservado em São Paulo, o economista Arminio Fraga foi direto: o país precisa de “paz” e de uma visão de futuro antes de qualquer planilha. “Não existe medida mágica”, resumiu. Na mesma linha, Leandro Vilain, futuro presidente da Febraban, descartou soluções instantâneas: “Se fosse fácil, estava feito.”
Para ambos, as contas públicas e a Previdência precisam de cirurgia, mas a taxa de juros — dor imediata do empresariado — será apenas consequência da credibilidade dessas medidas, somada a variáveis externas como guerra e petróleo. O cenário, admitem, é “muito imprevisível”.
O que o mercado quer ver na mesa no primeiro mês
Isaac Sidney, atual presidente da Febraban, propõe uma agenda dupla desde o dia 1: investimentos com produtividade e contenção fiscal. “Quanto mais crível o conjunto de ações, melhor assimiladas elas serão”, afirmou. A equação passa por transparência total na trajetória da dívida e fim das exceções orçamentárias.
Três sinais concretos separam gestão séria de improviso, segundo os executivos ouvidos:
- Orçamento moderno: flexível o suficiente para dialogar com a realidade social, sem amarras rígidas atuais (Bruno Funchal, Bradesco Asset).
- Reforma da Previdência: considerada “indispensável” antes do fim do mandato (Piero Minardi, Lazuli Partners).
- Custo de capital: nenhum governo deveria terminar o ciclo sem reduzir o spread bancário, alavanca do crescimento sustentável (Sidney).
Juros altos, crédito travado e o grito do agronegócio
Eduardo Monteiro, vice-presidente da Mosaic, trouxe a dor do setor real: “Um dos grandes problemas da economia brasileira é a taxa de juros”. O agro, motor exportador, sofre com a seca de crédito causada pelo custo do dinheiro. A receita dele é conhecida, mas dura: reforma fiscal rigorosa com gestão eficiente de gastos, o que equalizaria a política monetária em cascata.
André Porto, da Amobitec (Uber, iFood), reforçou: sem debruçar sobre o fiscal como sociedade, não há estabilidade para crescimento sustentável. Mas o fiscal não é o único gargalo.
Além do fiscal: trabalho, energia e a “nova” concorrência das bets
Alessandro Cunha, CEO da Aviva, mirou na CLT: “Estamos engessados em um modelo único, arcaico”. Defende flexibilização profunda para dar mobilidade a trabalhadores e empresas. Já Donovan Ferreti, da Ticketmaster, apontou um fenômeno comportamental novo: a regulamentação das apostas esportivas drena consumo de entretenimento — viagens, hotéis, restaurantes — para o formato de aposta. Pede regulação dura para revenda de ingressos e fraudes online.
Do lado da infraestrutura, Camila Pantera (N5X) alertou: princípios econômicos falham se CVM, Banco Central e Aneel estiverem enfraquecidos. Prioridade dela: fortalecer instituições e integrar agências estaduais para desenvolver o mercado de gás natural, garantindo segurança energética. Bruno Rossini (99) fechou o ciclo tecnológico: estabilidade jurídica e destrave competitivo para inovação digital.
O que observar daqui para frente
A transição de governo será o primeiro teste real. Observe a composição da equipe econômica: nomes técnicos com histórico de diálogo institucional sinalizam continuidade; escolhas puramente políticas indicam ruído à frente. Outro termômetro são os primeiros 100 dias: a apresentação de um arcabouço fiscal crível — com metas claras e gatilhos de correção — vale mais que discursos de posse. Se a “paz” prometida pelos CEOs não vier acompanhada de números transparentes, o custo do capital seguirá alto e o investimento, paralisado.
