A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) travou a divulgação de detalhes econômicos para surfar a crise no STF e evitar desgastes com o eleitorado a dias do primeiro turno. A estratégia troca propostas concretas por uma narrativa de “saneamento institucional”, deixando investidores e empresários sem parâmetros claros para precificar o risco fiscal de um eventual governo.
O coordenador político, senador Rogério Marinho, admite que nomes da equipe econômica e medidas específicas ficam para depois das urnas. Mas nega tratar-se de um cheque em branco.
A aposta na crise do Supremo como cortina de fumaça
Integrantes da cúpula da campanha afirmam, reservadamente, que o noticiário dominado pelo escândalo do Banco Master e pela tensão inédita no STF criou uma “maré favorável”. O foco total migrou para tentar transferir a rejeição ao ministro Alexandre de Moraes para o presidente Lula (PT).
A tese é simples: Flávio seria o único capaz de “sanear o Supremo” e restaurar a confiança nas instituições. Com isso, o debate sobre ajuste fiscal, teto de gastos e privatizações foi empurrado para o plano de fundo.
O “não sou Mãe Dináh” e a meta de 1,5% do PIB
Daniella Marques, coordenadora do plano de governo e ex-presidente da Caixa, resume a postura em entrevista: o detalhamento caberá ao Congresso. “A gente vai para o chão do Congresso trazer todo mundo para a mesa para cortar na carne”, disse ela.
As diretrizes gerais existem e são ambiciosas:
- Ajuste fiscal de 1,5% do PIB;
- Novo teto de gastos atrelado à relação dívida/PIB;
- “Tesouraço” em despesas e impostos, sem especificar onde a lâmina corta.
Como se chega a esses números? A campanha não explica. A promessa é de que o orçamento estará equilibrado e que “o mercado já entendeu isso”, segundo Marinho.
O trauma de abril: por que o silêncio virou tática
A decisão de esconder o jogo não é improvisada. No início do ano, o vazamento de estudos internos causou estrago eleitoral. A equipe avaliava:
- Desvincular o piso constitucional da saúde (15% da RCL) e da educação (18% da RLI);
- Desindexar o salário mínimo dos benefícios previdenciários, limitando reajustes à inflação (sem ganho real).
Diante da repercussão negativa, Flávio negou as propostas, mas Daniella não as descartou. O episódio ensinou: detalhar cedo dá munição ao adversário.
O “gabarito” do passado e a equipe de Sachsida
Para compensar a falta de propostas presentes, Marinho aponta o retrovisor. “Recebemos dívida/PIB em 75% e entregamos em 71%”, repete o senador, referindo-se aos quatro anos do governo Jair Bolsonaro.
Nos bastidores, o núcleo econômico é robusto e chefiado por Adolfo Sachsida (ex-Minas e Energia). O time inclui:
- Luiz Felipe Trevisan (ex-diretor do Itaú BBA);
- Alexandre Messa (ex-MDIC e superministério da Economia);
- Cogita-se Marcelo Kayath (ex-banqueiro) para a Fazenda.
Eles mantêm reuniões semanais e rodadas com empresários, mas o output público permanece genérico.
O contra-ataque petista e o vazio social
A campanha de Lula explorou o vácuo. O slogan “Falar é Flávio, fazer é Lula” entrou no horário eleitoral. Petistas destacam que o plano do adversário tem 21 mil palavras, mas zero menções a salário mínimo, Pé-de-Meia ou Minha Casa Minha Vida.
Outro flanco fraco: privatizações. Flávio defende a tese em tese, mas evita listar estatais. Daniella já afastou os Correios do bloco, apesar da crise financeira da empresa.
O que observar daqui para a frente
A transição de governo — se houver vitória — virou o evento-chave para o mercado. É lá que a “autocontenção” prometida por Daniella será testada na prática, na negociação real com um Congresso fragmentado.
Até outubro, três variáveis mandam no preço dos ativos: a intensidade da crise no STF, a capacidade de Flávio manter a ambiguidade fiscal sem assustar o centro, e a reação do eleitorado à ausência de promessas sociais concretas no programa. Quem precisa alocar capital agora opera no escuro; a luz só acende após a apuração.
