O governo federal acaba de autorizar a União a comprar dívidas atrasadas em leilão e repassar o desconto integral ao devedor — com abatimento mínimo de 90%. A medida provisória assinada hoje (25) em São Paulo pode alcançar 15 milhões de pessoas e movimentar até R$ 75 bilhões em renegociações efetivas.
Mas o que ninguém explica é como o calendário apertado até fevereiro de 2027 vai definir quem realmente consegue limpar o nome. Entenda o mecanismo e veja se você se encaixa.
Como funciona o leilão reverso que beneficia o devedor
Credores — bancos, varejistas, concessionárias de água e luz — vão ofertar carteiras de dívidas em leilão. Vence quem der o maior desconto. A União paga pelo lote e transfere o mesmo percentual de abatimento para o cidadão.
Regras de elegibilidade são estritas:
- Valor original da dívida: até R$ 10 mil
- Inadimplência entre 720 e 1.645 dias (2 a 4,5 anos)
- Credor deve entregar todas as dívidas daquele devedor no lote — sem cherry-picking
O desconto mínimo garantido é de 90%. Se o leilão fechar a 95%, o devedor paga apenas 5% do valor original. O saldo pode ser quitado à vista ou parcelado, com juros a serem definidos pelo Conselho Monetário Nacional.
O impacto direto no seu bolso e no caixa das empresas
Para o empresário ou investidor, a leitura é dupla. De um lado, o programa injeta liquidez em credores que travavam carteiras “incobráveis” há anos. Do outro, devolve poder de consumo a até 15 milhões de CPFs hoje negativados — média de quatro dívidas por pessoa, tíquete médio de R$ 7 mil.
Dados do Tesouro mostram um estoque de R$ 592 bilhões em dívidas inadimplidas com até cinco anos de atraso. Desse total, 55% são não bancárias (contas de utilidades, varejo, serviços). O Desenrola 3.0 mira justamente esse filão.
Cronograma enxuto: o que acontece nos próximos 5 meses
| Mês | Marco |
|---|---|
| Set/2026 | Publicação da MP (altera Lei 14.690/2023) |
| Nov/2026 | Chamamento para credores enviarem propostas |
| Dez/2026 | Entrega das propostas pelos credores |
| Jan/2027 | Homologação das selecionadas |
| Fev/2027 | Contratos assinados e repasse do desconto inicia |
R$ 15 bilhões estão reservados no Orçamento para financiar as aquisições. A expectativa do governo é que R$ 150 bilhões em dívidas sejam elegíveis, mas a adesão real de credores e devedores deve convergir para metade desse volume.
O que observar daqui para frente
As duas fases anteriores atenderam 25 milhões de pessoas somando R$ 75 bilhões renegociados. A novidade agora é a participação direta da União como compradora — o que remove o gargalo da negociação bilateral e padroniza o desconto.
Fique atento a três variáveis: (1) a taxa de adesão dos grandes credores não bancários no leilão de dezembro; (2) a definição dos juros de parcelamento pelo CMN, que pode tornar a quitação à vista mais vantajosa; (3) a capacidade operacional de Caixa e Banco do Brasil para processar os repasses a partir de fevereiro.
Se você tem dívida nesse perfil ou atende clientes nesse perfil, o movimento entre novembro e janeiro vai ditar o ritmo de recuperação de crédito no primeiro trimestre de 2027.
