Economia

O fim das bets no Brasil: o que muda a partir de 6 de outubro e por que uma mãe comemora

Mãe Vânia de Souza Borges ao lado do presidente Lula anunciando fim das bets no Brasil
Vânia de Souza Borges, mãe de Rafael, comemora suspensão das apostas online determinada pelo governo.

O governo federal determinou a suspensão total das apostas on-line no país a partir de 6 de outubro. A medida atende a um apelo direto feito ao presidente Lula por Vânia de Souza Borges, mãe de Rafael, que tirou a própria vida aos 26 anos após perder o controle sobre jogos virtuais. O anúncio marca uma virada radical na política do setor, mas a mãe do jovem avisa: “é apenas o começo”.

O cronograma que todo apostador precisa saber

A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda estabeleceu prazos rígidos para a retirada de saldos e o desligamento das plataformas. Quem tem dinheiro nas contas deve agir rápido:

  • Até 23h59 de 5 de outubro: saque voluntário dos valores disponíveis
  • Dia 6 de outubro: sites e aplicativos saem do ar
  • Dias 7 a 8: divulgação de saldos por CPF
  • Dias 9 a 14: devolução integral aos usuários
  • A partir de 14 de outubro: Caixa Econômica Federal assume a intermediação se houver impedimentos

Por que a regulamentação não bastou

Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas podiam operar no Brasil. A regra, porém, não freou o endividamento das famílias nem a publicidade agressiva. Vânia levou ao Palácio do Planalto a história do filho: em março de 2024, Rafael enviou um áudio a um amigo admitindo que não conseguia mais controlar as perdas. Na madrugada da morte, fez uma transferência de R$ 30 para uma conta ligada ao “Jogo do Tigrinho”.

O Ministério Público de Minas Gerais arquivou a investigação em maio deste ano. A mãe, então, reuniu e-mails promocionais, extratos e a própria carta que acabou anexada à CPI das Bets no Senado. O encontro com Lula, em 13 de outubro, reuniu outros sete dependentes e familiares. O pedido foi unânime: cortar o mal pela raiz, não apenas regular.

O que prevê o projeto de lei que vai ao Congresso

O Executivo prepara uma proposta que transforma a operação de bets em crime hediondo. A minuta prevê penas que variam conforme a conduta:

  • Exploração ou operação de apostas: 4 a 6 anos de reclusão + multa (aumenta 1/3 se for jogo virtual como cassinos on-line)
  • Publicidade, marketing e recrutamento: 2 a 4 anos + multa (exceto conteúdo jornalístico, educativo ou crítico)
  • Uso de dados pessoais para direcionar anúncios: 2 a 4 anos, com agravante se envolver histórico de perdas, diagnóstico de ludopatia ou dados de menores
  • Facilitação financeira e plataformas tecnológicas: 2 a 4 anos para quem processa pagamentos, desenvolve apps ou armazena dados sabendo da origem

Os “PLs Rafael” e a responsabilidade dos influenciadores

Em paralelo, a deputada federal Dandara (PT-MG) protocolou dois projetos apelidados de “PLs Rafael”. O primeiro proíbe que influenciadores e afiliados recebam comissão baseada nas perdas dos apostadores que atraírem — apenas cachês fixos por campanha. O segundo obriga as plataformas a monitorar comportamento compulsivo e, ao detectar sinais, comunicar a Secretaria de Prêmios e Apostas para bloqueio temporário de no mínimo 60 dias, com vedação a bônus e encaminhamento a apoio psicológico.

Ambos aguardam tramitação na Câmara. A deputada também pediu à Senacon e ao Departamento de Proteção do Consumidor que apurem publicidade enganosa e falhas de proteção nas plataformas atuais.

O que observar daqui para frente

A proibição entra em vigor em menos de duas semanas, mas o projeto de lei ainda precisa passar pelo Congresso — onde o setor deve articular emendas. Para empresários e investidores, o sinal é claro: o modelo de receita baseado em aquisição de usuários via influenciadores e bônus agressivos perde base legal. Já para quem atua em meios de pagamento ou desenvolvimento de aplicativos, o risco de enquadramento penal exige revisão imediata de contratos e compliance. O próximo capítulo será escrito no Legislativo, mas o recado do Executivo já foi dado: a tolerância com o vício em apostas acabou.