Daniel Susskind, especialista em trabalho e tecnologia com passagens por Oxford e Stanford, lança um aviso direto: “Não podemos ter certeza de que o conselho que demos aos nossos filhos no ano passado continuará válido no próximo”. A frase abre seu novo livro, What Should My Children Do?, ainda sem edição no Brasil, e resume a ansiedade de uma geração inteira de pais e gestores.
A tese central inquieta: a automação não poupa mais apenas o chão de fábrica. Ela mira o colarinho branco — justamente onde a maioria das famílias apostou suas fichas nas últimas décadas.
O diploma deixou de ser seguro
Susskind é enfático: “O nível de educação formal de que uma pessoa precisa para realizar uma tarefa é um indicador cada vez menos útil para determinar se essa tarefa pode ser automatizada”. Traduzindo: mestrado, doutorado, certificações caras — nada disso garante imunidade.
A IA generativa já projeta edifícios, redige contratos complexos e escreve ficção com timing cômico. Não copia humanos; “opera de maneiras muito diferentes”, escreve o autor. O xadrez não morreu após o Deep Blue vencer Kasparov em 1997. Mas o jogo mudou — e os jogadores também precisam mudar.
O modelo de aprendizagem que o mercado ignorou
Para Susskind, a solução está no passado industrial. Ofícios de colarinho azul sempre usaram aprendizagem prática: o novato acompanha o mestre, absorve nuances, erra sob supervisão. O mundo corporativo abandonou isso em favor de treinamentos teóricos e onboarding genérico.
A proposta do autor é radical e concreta:
- Simulações realistas para contadores, advogados, analistas — no mesmo molde usado para treinar operadores de usinas nucleares e pilotos de Fórmula 1
- IA generativa como sparring partner: cria cenários, testa decisões, devolve feedback imediato
- Mentoria estruturada desde o dia um, não como benefício para poucos
“Se a aprendizagem simulada é boa o bastante para treinar a próxima geração de gestores de usinas nucleares, deveria ser capaz de fazer o mesmo pela próxima geração de contadores”, argumenta.
Educação: um terço do currículo para IA
Susskind alinha-se ao economista Tyler Cowen: cerca de 33% do tempo letivo universitário deveria focar em IA. Não apenas “como usar ferramentas”, mas história da área, ética, limitações concretas de cada modelo, vieses conhecidos.
O objetivo: formar “críticos ativos”. Gente que não confia cegamente no output do chatbot, que sabe onde a alucinação costuma aparecer, que reconhece quando o modelo falha em raciocínio causal.
O risco inverso é real: delegar demais e atrofiar leitura, escrita, matemática, análise científica. Habilidades que a IA ainda não substitui — e que servem de base para avaliar o que a IA produz.
O inimigo invisível: o modelo de negócios da distração
Um dado assusta: um terço dos americanos de 13 a 17 anos está nas redes sociais “quase constantemente”. Em 1840, o correio universal na Inglaterra gerou pânico por 12 entregas diárias de cartas. Hoje, a distração não é efeito colateral — é o modelo de negócios.
Susskind, pai de três filhos, admite ter usado ChatGPT para criar histórias no estilo Dr. Seuss com as crianças. Funcionou. Mas ele próprio questiona: “Pessoalmente, eu preferiria inventar uma história para dormir com meu filho sem recorrer a uma tela”.
A tensão é deliberada. O livro não propõe ludismo nem entrega total. Propõe escolha consciente.
O que sobra para humanos — e por que isso importa para seu negócio
Susskind mapeia territórios onde a preferência humana resiste:
- Decisões morais e judiciais — não queremos robôs sentenciando
- Saúde, psicoterapia, orientação espiritual — a empatia não se simula
- Ensino e cuidado — a relação é o tratamento
- Objetos feitos à mão — o “imperfeito” carrega valor
- Esporte e arte ao vivo — a falha humana é o espetáculo
Para empresas, a lição é estratégica: não contrate para tarefas que a IA já faz. Contrate para julgamento, contexto, relacionamento, ética. O ROI do humano migrou da execução para a discernimento.
O que observar daqui para frente
Três movimentos merecem radar nos próximos 18 meses:
- Grandes firmas de contabilidade, direito e consultoria reestruturando programas de trainee para incluir simulação com IA e mentoria sênior obrigatória
- Universidades redesenhando currículos — as que não reservarem ~30% para alfabetização crítica em IA perderão relevância no mercado de trabalho
- Regulação de design de plataformas: a distração como modelo de negócios entrará na mira de legisladores (EU AI Act já sinaliza isso)
A pergunta do título do livro — “O que meus filhos devem fazer?” — vale para qualquer líder hoje: Para que estou preparando minha equipe? A resposta de Susskind não é uma lista de profissões seguras. É um convite a repensar a formação contínua, a atenção profunda e o valor do julgamento humano num mundo onde a execução técnica deixa de ser diferencial.
Quem entender isso primeiro não apenas sobrevive. Define as regras do próximo jogo.
