Economia

O aviso dos grandes CEOs: sem confiança, ajuste fiscal não sai do papel

CEOs e líderes empresariais em evento fechado em São Paulo discutindo confiança e ajuste fiscal
Líderes como Arminio Fraga e executivos da Febraban debatem a confiança como base para o ajuste fiscal.

O próximo presidente não resolverá o desequilíbrio das contas públicas com uma canetada. O recado unânime de dezenas de líderes empresariais — de bancos a gigantes do agro e tecnologia — é que a prioridade zero não é técnica, mas política: reconstruir a confiança em um país fraturado.

Em evento fechado em São Paulo para lançar a plataforma C-Level, nomes como Arminio Fraga, Leandro Vilain (ABBC/Febraban) e Isaac Sidney (Febraban) desenharam um cenário onde a credibilidade é moeda mais valiosa que qualquer projeto de lei.

A conta que não fecha com “bala de prata”

Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, foi direto: o governo precisa trazer “paz e visão de futuro” antes de apresentar planilhas. “A situação hoje exige muito mais” que o ajuste fiscal, afirmou. Na mesma linha, Leandro Vilain descartou soluções mágicas: “Se fosse fácil, estava feito. Chegava no dia 1º, dava uma canetada e resolvia”.

O consenso é que a dinâmica da dívida assusta, mas o remédio amargo só será engolido se houver confiança no médico. Vilain alertou que juros e inflação dependem também de variáveis externas — guerra, petróleo — tornando o cenário “muito imprevisível”.

O roteiro dos primeiros 100 dias para o mercado

Isaac Sidney, presidente da Febraban, propôs uma agenda dual imediata: investimentos e produtividade de um lado, contenção fiscal do outro. “Quanto mais crível o conjunto de ações, melhor elas serão assimiladas”, disse. O objetivo explícito: terminar o mandato com custo de capital e crédito mais baixos, alavancas do crescimento real.

Bruno Funchal (Bradesco Asset) cobrou uma quebra rápida da percepção de insolvência fiscal. Para ele, o Orçamento precisa se tornar “mais saudável, moderno e com liberdade” — hoje, considera-o excessivamente rígido. Piero Minardi (Lazuli Partners) foi além: “O novo governo não pode terminar o mandato sem fazer uma reforma séria da Previdência”.

Juros altos travam do agronegócio ao entretenimento

O impacto da taxa de juros extrapola o mercado financeiro. Eduardo Monteiro (Mosaic/Fertilizantes) classificou os juros como “um dos grandes problemas da economia brasileira”, secando o crédito para o agro. André Porto (Amobitec/Uber, iFood) resumiu: sem equilíbrio fiscal, “não vamos conseguir ter estabilidade econômica para proporcionar o crescimento sustentável”.

Donovan Ferreti (Ticketmaster) trouxe um ângulo comportamental: a regulamentação das bets (apostas) já altera o consumo de lazer. “A pessoa deixa de consumir o entretenimento e passa a consumi-lo no formato de aposta”, observou, defendendo também regras duras contra fraude na revenda de ingressos.

Além do fiscal: as reformas invisíveis que travam o país

A pauta não parou no Tesouro. Executivos apontaram gargalos estruturais que o próximo Planalto precisará enfrentar:

  • Trabalhista: Alessandro Cunha (Aviva/Resorts) cobra modernização profunda. “Estamos muito engessados em um modelo único, arcaico”. Flexibilidade para ambos os lados é a palavra de ordem.
  • Instituições: Camila Pantera (N5X/Energia) alerta: CVM, Banco Central e Aneel precisam de reforço. “Não adianta discutir princípios se as instituições estão enfraquecidas”. Ela pede ainda integração regulatória para o mercado de gás natural.
  • Tecnologia e segurança jurídica: Bruno Rossini (99) defende destravar a competitividade tech. “Manter estabilidade jurídica é o principal desafio para que o investimento seja frutífero”.

O que observar daqui para frente

A equação apresentada pelos CEOs forma uma sequência lógica: credibilidade → expectativas ancoradas → juros menores → investimento → crescimento. Pular a primeira etapa, avisam, condena o resto da conta ao fracasso. O termômetro dos próximos meses será a capacidade do novo governo de sinalizar — com nomes, metas e discurso — que a disciplina fiscal não é negociação, mas premissa inegociável. Quem apostar em atalhos, corrigem os executivos, colherá apenas mais volatilidade.