Um estudo do NetLab, da UFRJ, revela que o Kwai não cumpre as exigências do TSE para anúncios políticos, impedindo a fiscalização completa do que circula na plataforma. A falha atinge diretamente 40% dos usuários brasileiros de internet, majoritariamente das classes C, D e E. O tribunal já avalia sanções.
O que o levantamento expôs
Pesquisadores analisaram a Biblioteca de Anúncios do Kwai com base em 11 critérios da Justiça Eleitoral. O diagnóstico, finalizado em 16 de setembro de 2026, aponta cinco descumprimentos totais, três atendimentos parciais e apenas três conformidades plenas.
As lacunas mais graves impedem saber quanto foi gasto, quem viu o anúncio e como encontrá-lo sem conhecer o anunciante previamente. Veja os cinco pontos críticos:
- Gastos: valores apresentados em faixas (ex: R$ 0 a R$ 500), sem o montante exato desembolsado.
- Alcance: intervalos amplos de impressões (ex: “menos de 5 milhões”), sem precisar quantas pessoas únicas foram impactadas.
- Audiência: mostra o público alvo configurado pelo anunciante, mas omite o perfil de quem de fato recebeu a peça.
- Busca: só permite localizar anúncios pelo nome do anunciante; não há pesquisa por palavras-chave ou temas.
- Coleta: ausência de API pública, dificultando a extração automática de dados em larga escala.
Mas o efeito mais relevante aparece na forma como os anúncios são encontrados — ou deixam de ser.
Por que a busca limitada é o maior risco
A resolução do TSE exige busca por palavras-chave, termos de interesse e nomes de anunciantes. No Kwai, só a última opção funciona. Na prática, isso obriga o fiscal a saber de antemão quem é o “anunciante problemático” para investigá-lo.
Sem busca por conteúdo, anúncios que mencionam “urna eletrônica” ou pedem voto explícito — contratados por páginas não autorizadas — ficam invisíveis. A diretora do NetLab, Marie Santini, resume: “Para saber se está rodando anúncio irregular, a gente tem que conseguir buscar, percorrer os anúncios independentemente dos anunciantes”.
A ausência de API agrava o problema. Sem ela, a coleta manual ou “raspagem” torna-se a única alternativa, métodos lentos e propensos a falhas que não garantem a captura de todo o universo de peças.
Gastos e alcance: números que não batem
A regulamentação exige precisão cirúrgica. O Kwai entrega aproximações. Para despesas de até R$ 5 mil, as faixas saltam de R$ 500 em R$ 500. Um anúncio de R$ 10 e outro de R$ 500 caem no mesmo balde. Acima desse teto, os intervalos chegam a R$ 5 mil.
No alcance, a maioria das peças analisadas entre 26 de agosto e 16 de setembro exibiu a etiqueta “menos de 5 milhões de impressões”. Um anúncio visto 100 vezes e outro visto 4,5 milhões de vezes recebem o mesmo rótulo. Para Santini, isso “dificulta auditar os gastos das campanhas e comparar os valores cobrados dos anunciantes”.
Essa opacidade abre brecha para que dinheiro de origem duvidosa financie propaganda sem deixar rastro auditável.
Público-alvo versus público real: a caixa-preta do microtargeting
A biblioteca mostra critérios de direcionamento escolhidos pelo anunciante: idade, gênero, região, marca do celular, sistema operacional. Mas não revela quem efetivamente viu a mensagem. Também não há dados sobre segmentação por interesses, embora a plataforma ofereça esse recurso.
A distinção é crucial. A lei veda discriminação ilícita e exige consentimento específico para uso de dados sensíveis na propaganda eleitoral. Sem saber quem foi impactado, torna-se impossível verificar se esses limites foram respeitados. A falta de transparência não prova irregularidade, mas blinda a plataforma contra a fiscalização.
Resposta do Kwai e próximos passos do TSE
Procurada, a empresa afirmou que seu Plano de Conformidade para 2026 foi revisado e aprovado pelo tribunal. Disse ainda que o acesso à API para análise em escala está disponível mediante solicitação no Portal de Solicitação de Aplicação da Lei, e que falhas técnicas serão corrigidas.
O TSE confirmou que o relatório está sob análise e que “tomará providências” nos termos da resolução de propaganda eleitoral. Em julho, a plataforma participou de reunião com o presidente do tribunal, ministro Nunes Marques, para firmar compromissos contra desinformação.
O que observar daqui para frente
Se o TSE determinar a suspensão do impulsionamento político no Kwai até a adequação total, campanhas que dependem do alcance massivo da plataforma — especialmente junto ao eleitorado de menor renda — terão de redirecionar verbas e estratégias às pressas. Para investidores e agências, o sinal é claro: a conformidade técnica da biblioteca de anúncios deixa de ser detalhe burocrático e vira condição de elegibilidade para receber dinheiro público ou privado em ano eleitoral. Acompanhe as próximas resoluções do tribunal; elas ditarão o ritmo do jogo digital em 2026.
